Ted Turner, criador do modelo de notícias 24 h na TV, morre aos 87 anos

Por Folhapress

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ted Turner, o magnata da mídia que se destacou pelo pioneirismo no cenário americano do final do século 20 ao dominar a indústria de televisão a cabo, morreu na quarta-feira em sua casa perto de Tallahassee, na Flórida. Ele tinha 87 anos.

Ele revolucionou a cobertura jornalística na televisão ao determinar que a CNN tivesse transmissão 24 horas por dia de notícias. Também marcaram a vida de Turner a atuação no esporte profissional, na filantropia e na militância ambiental. Sua família afirma que o empresário morreu cercado pelos familiares.

A causa da morte não foi informada. A Turner, conglomerado que controla a CNN, anunciou em 2018 que ele tinha demência com corpos de Lewy, uma doença cerebral progressiva.

O empresário foi casado com a atriz Jane Fonda.

O portfólio do fundador da CNN ia muito além do conglomerado de mídia e seu impacto na cultura americana foi considerável, de acordo com o New York Times.

O empresário, que vivia em Atlanta, construiu um império midiático que abrangia a primeira superestação da TV a cabo e canais populares de filmes e desenhos animados, além de times esportivos profissionais como o Atlanta Braves.

Dar às pessoas notícias quando e onde elas quiserem. Essa, diz Mark Thompson, CEO da CNN, foi uma das brilhantes percepções de Ted Turner ao começar a rede no início da TV a cabo. E, se a CNN não seguir esse conselho na era digital, Thompson afirma que a empresa pode deixar de existir.

Como desdobramento da CNN, Turner criou os canais CNN Headline News e CNN International. Ele fundou a "superestação" de esportes e entretenimento por cabo e satélite que ficou conhecida como TBS, que se desdobrou no canal de filmes TNT. Todas essas emissoras seguem no ar.

Enquanto construía um império da mídia, o executivo encontrou tempo e energia para capitanear o iate vencedor da Copa América em 1977 e para assumir um papel ativo como proprietário do Atlanta Braves, dando à equipe uma exposição nacional prolongada na televisão de propriedade de Turner.

Nascido em 1938, em uma família tradicional de Ohio, Turner também era um dos maiores proprietários de terras nos Estados Unidos, segundo levantamento da agência Bloomberg. Ele detinha uma área de cerca de 810 mil hectaes, na qual foi um dos responsáveis por repopularizar a criação de bisões nos EUA.

O posicionamento político de Turner era contraditório e controverso. Embora se declarasse um republicano arquiconservador com laços calorosos com grupos evangélicos e membros da extrema-direita da John Birch Society, ele também cultivou amizade com o líder cubano Fidel Castro e defendeu a conduta repressiva do governo comunista chinês.

Em um ato extraordinário de filantropia, doou um bilhão de dólares às Nações Unidas, uma organização detestada pelos conservadores americanos. Adorava caçar, mas se tornou queridinho dos ambientalistas ao comprar mais de um milhão de acres de áreas selvagens e terras de fazenda, transformando-as em reservas naturais.

Tornou-se o quarto maior proprietário privado de terras dos Estados Unidos, além de possuir vastas extensões que possuía na Argentina e em outros países.

A influência de Turner foi mais evidente na forma como sua CNN transformou o jornalismo televisivo ao apresentar notícias 24 horas por dia, com atualizações constantes, transmitindo uma sensação de imediatismo.

"Hoje, as notícias estão disponíveis quando realmente acontecem, não quando é conveniente para as três grandes redes de TV transmiti-las", escreveram os autores pai e filho Robert Goldberg e Gerald Jay Goldberg na biografia de 1995 do magnata, "Citizen Turner: The Wild Rise of an American Tycoon". Seja cobrindo a queda do Muro de Berlim, a repressão ao movimento estudantil chinês na Praça da Paz Celestial ou a Guerra do Golfo Pérsico de 1991, a CNN de Turner era o veículo para assistir à história sendo feita.

"Eu aprendo mais com a CNN do que com a CIA", disse o presidente George H.W. Bush, em declaração amplamente citada na época da guerra.

O próprio Turner afirmava não ter muito interesse em notícias ou em qualquer outro tipo de negócio. Era a emoção da caçada que o movia, não a presa. Como disse ao New York Times: "Sempre fui mais aventureiro do que empresário".

Ao jornalista Dale Van Atta, então repórter da revista Reader's Digest, o fundador da CNN disse, em 1998, que tentava estabelecer o recorde de todos os tempos de realizações de uma única pessoa em uma única vida. "E isso me coloca em uma companhia e tanto: Alexandre, o Grande, Napoleão, Gandhi, Cristo, Maomé, Buda, Washington, Roosevelt, Churchill."

Nem mesmo seus admiradores mais fervorosos colocavam o Turner em um pedestal tão alto. Mas até um rival ferrenho como o magnata da mídia Rupert Murdoch ?que certa vez publicou no seu New York Post a manchete "Turner é louco?"? teve que admitir que ele foi uma das figuras mais influentes da história dos meios de comunicação de massa.