Ministro extremista de Israel transformou segurança pública em plataforma de radicalização política

Por DIOGO BERCITO

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Itamar Ben-Gvir, ministro israelense da Segurança Nacional, festejou seus 50 anos no início do mês. No bolo de aniversário havia o desenho de uma forca. Era o símbolo de uma das bandeiras de sua gestão: a pena de morte por enforcamento para palestinos condenados por terrorismo.

A cena foi criticada no país e no exterior. "Tivemos outras figuras radicais de direita antes, mas nunca em posições tão proeminentes", diz Guy Ben-Porat, professor de ciência política na Universidade Ben-Gurion do Negev. "Ele normalizou discursos antes tidos como inaceitáveis."

Outro episódio polêmico ocorreu nesta segunda-feira (11), após a União Europeia impor sanções contra colonos israelenses na Cisjordânia. Ben-Gvir reagiu chamando o bloco europeu de antissemita e prometendo seguir construindo assentamentos naquele território.

Descendente de judeus iraquianos, Ben-Gvir nasceu em Mevaseret Zion, a oeste de Jerusalém. Radicalizado durante o levante palestino conhecido como Primeira Intifada (1987-1993), passou a militar em grupos ultranacionalistas.

Identificava-se, em especial, com o chamado kahanismo. Esse movimento defendia, entre outras coisas, a expulsão violenta dos árabes de Israel. O grupo foi banido em Israel e chegou a ser considerado uma organização terrorista pelos Estados Unidos.

Ben-Gvir formou-se em direito e fez fama ao defender extremistas judeus acusados de violência contra palestinos. Manteve em casa, por anos, uma fotografia de Baruch Goldstein ?o israelense responsável pelo atentado terrorista que matou 29 palestinos em Hebron em 1994.

"Ben-Gvir é um neofascista da extrema direita com uma forte posição antiárabe e ideias de superioridade judaica", diz Ben-Porat.

Nos anos 1990, Ben-Gvir se opôs à assinatura dos Acordos de Oslo, que previam o estabelecimento de um Estado palestino e o fim do conflito. Chegou a aparecer em 1995 na TV ameaçando o premiê Yitzhak Rabin. Semanas depois, Rabin foi assassinado por um extremista israelense.

Durante grande parte de sua carreira, Ben-Gvir foi relegado às margens pela classe política. O primeiro-ministro Binyamin Netanyahu costumava esperar que Ben-Gvir descesse do palco antes de subir, recusando-se a ser visto ao lado dele. Nos últimos anos, no entanto, ele ganhou cada vez mais relevância.

Fortaleceu-se com um discurso pró-segurança e pró-armas, encontrando aliados no país. Nas eleições de 2022, seu partido, a Força Judaica, obteve seis assentos em um total de 120 do Parlamento, o Knesset. Não era suficiente para governar, mas o sistema fragmentado de Israel acabou por ajudá-lo.

Aqueles seis assentos, afinal, fariam com que Netanyahu conseguisse formar uma maioria para governar. Por isso, convidou Ben-Gvir para sua coalizão ?e, em troca, deu-lhe a pasta da Segurança Nacional. "Foi Netanyahu, no final das contas, quem o legitimou", afirma Ben-Porat.

O próprio partido de Netanyahu, o Likud, moveu-se mais à direita nos últimos tempos, afirma o professor. Um indício disso é o número de membros da sigla que agora aparecem ao lado de Ben-Gvir.

Uma vez no governo, Ben-Gvir endureceu as medidas contra o crime e o terrorismo. "Promove as pessoas com base na lealdade delas, não no mérito", afirma o especialista. O ministro facilitou ainda a aquisição de armas e a formação de milícias em assentamentos judaicos na Cisjordânia.

Sua maior vitória, porém, foi a aprovação da pena de morte pelo Parlamento em março, o que foi duramente criticado por organizações de defesa dos direitos humanos. Entre as razões para a oposição está o fato de que a medida pune os atentados contra a existência de Israel, sendo aplicada de maneira discriminatória aos palestinos.

Israel deve voltar às urnas até outubro pela primeira vez desde as recentes guerras em Gaza, no Líbano e no Irã. Caso os partidos de oposição ganhem, é improvável que incluam Ben-Gvir e seu movimento no governo, devolvendo-o, mesmo que temporariamente, à margem da política.

Ainda que isso aconteça, Ben-Gvir já terá sido instrumental nas transformações recentes de Israel. "Ele mudou as regras do jogo político ao empurrar o Likud mais à direita e ao fazer da polícia uma instituição mais ideológica", afirma Ben-Porat.