Trump tenta agradar Xi em encontro em Pequim, enquanto chinês alerta sobre risco de conflito por Taiwan
PEQUIM, CHINA (FOLHAPRESS) - Enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chamava de "amigo" o líder do regime chinês, Xi Jinping, o homólogo fez questão de reiterar que a relação entre os países deve ser baseada em ganhos mútuos e que, se a questão Taiwan for lidada por Washington de forma inadequada, haverá conflitos.
Os mandatários se encontraram em Pequim na manhã desta quinta-feira (14) no horário local, madrugada do mesmo dia no Brasil, para reunião bilateral e outros compromissos oficiais da visita de Estado do americano à capital chinesa.
Em seguida, visitaram o Templo do Céu, um cartão postal da capital chinesa, e jantaram juntos em um banquete de Estado, momento em que Trump convidou Xi para visitar Washington em setembro.
O dia começou uma recepção amigável, marcada por risos e pequenos cochichos entre os líderes. Em pronunciamento na abertura da bilateral, Trump afirmou que os países terão um futuro fantástico juntos.
"Nós construímos uma relação fantástica. Nós nos demos bem. Quando houve dificuldades, nós as resolvemos. Eu ligava para você, e você ligava para mim, e sempre que tínhamos um problema ?as pessoas não sabem disso? sempre que tínhamos um problema, nós o resolvíamos muito rapidamente", disse o americano.
Pouco antes, o chinês já havia afirmado que os países devem evitar a "Armadilha de Tucídides", um conceito que descreve a tendência de guerra quando uma potência emergente desafia a dominante. A ideia, popularizada pelo americano Graham Allison, parte da leitura do historiador grego Tucídides sobre a Guerra do Peloponeso. Ele afirmava que a ascensão de Atenas gerou medo em Esparta, o que teria tornado o conflito inevitável.
Ao trazer a referência, Xi questionou se China e Estados Unidos seriam capazes de superar tal teoria e criar um novo modelo de relações entre potências.
"A China e os Estados Unidos têm a ganhar com a cooperação e a perder com o confronto. Devemos ser parceiros, não rivais. Nós devemos ajudar um ao outro a prosperar, e prosperar juntos", disse.
Uma de suas principais falas veio depois, durante a reunião de portas fechadas, que durou cerca de duas horas e quinze minutos.
A fórmula é a mesma que sua diplomacia tem usado nos dias que antecederam a visita. O chanceler chinês, Wang Yi, por exemplo, afirmou ao secretário de Estado, Marco Rubio, que o ponto é o mais sensível das trocas bilaterais.
Horas depois, durante entrevista coletiva em Pequim, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Guo Jiakun, afirmou que os americanos devem ter "cuidado extra ao lidar com a questão Taiwan". O oficial não respondeu se houve algum pedido para que os EUA parem de vender armas para a ilha.
Há ainda a expectativa de que o tema volte a ser falado pelos líderes, visto que o secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmou em entrevista a CNBC, que Trump voltaria a falar sobre Taiwan.
"O presidente Trump entende as questões, e entende a sensibilidade das questões ao redor de tudo disso. Quem diz o contrário não entende o estilo de negociação de Trump", afirmou.
O encontro entre os chefes de Estado tem atraído especial atenção das lideranças de Taipé, uma vez que qualquer mudança no posicionamento americano poderia comprometer diretamente a defesa da ilha em caso de incursão chinesa.
Em resposta, a porta-voz do Executivo de Taiwan, Michelle Lee, afirmou que a liderança do território vê com bons olhos medidas que visam administrar riscos de expansão autoritária, e que "a ameaça militar da China é o único fator de insegurança para o Estreito de Taiwan e a região Indo-Pacífico".
A oficial se referia à fala de Xi a Trump durante o encontro, quando o lider afirmou, segundo o Ministério das Relações Exteriores da China, que "a independência de Taiwan e a paz no Estreito de Taiwan são incompatíveis como fogo e água".
A reunião bilateral entre os líderes ocorreu no Grande Salão do Povo, na Praça da Paz Celestial, o centro histórico do poder chinês desde os tempos imperiais. O local é o mesmo em que Xi recebeu Trump em sua primeira visita de Estado, em 2017, logo após ser eleito presidente dos EUA.
O americano chegou a Pequim na noite de quarta-feira (13) e permanecerá com agendas previstas com o líder chinês até sexta-feira. Trump veio acompanhado de uma série de CEOs e com o objetivo principal de fazer negócios e diminuir o déficit com a China, que no ano passado foi de US$ 202 bilhões.
Além da agenda comercial, o americano também conversou com Xi sobre a Guerra do Irã, segundo publicação da chancelaria chinesa. Havia a expectativa de que Trump tentasse convencer Xi a pressionar Teerã pela reabertura do Estreito de Ormuz, mas as informações divulgadas sobre a reunião até agora não indicam se o tema foi tratado.
Do outro lado, os principais pontos esperados para a conversa eram os controles de exportação de Washington sobre semicondutores e a questão Taiwan.
A chegada de Trump a Pequim é marcada pelo adiamento da reunião, que ocorreria em abril, mas teve a data alterada em decorrência do conflito no Oriente Médio. O governo americano tinha a expectativa de que, em um futuro próximo, quando o encontro ocorresse, a guerra já estivesse finalizada e não tomasse tanto espaço da agenda dos líderes, que poderiam tratar de outros temas relacionados a comércio, tarifas e tecnologia.
Apesar disso, a reunião seguiu marcada com o conflito como sua sombra, com Pequim apresentando a questão Taiwan em diversas frentes ?na conversa direta entre os líderes e em outras reuniões que ocorrem paralelamente.
Os líderes foram ainda até o Templo do Céu, um dos cartões-postais de Pequim. O espaço tem simbolismo especial em visitas de Estado, uma vez que é conhecido como o local onde imperadores pediam a bênção dos deuses por boas colheitas.