Cubanos protestam em meio a nova série de apagões causados por embargos dos Estados Unidos

Por Folhapress

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Protestos eclodiram por toda a capital de Cuba, Havana, na noite desta quarta-feira (14), enquanto a cidade enfrenta os piores apagões das últimas décadas, em meio a um bloqueio dos EUA que tem privado a ilha de combustível.

Multidões tomaram as ruas em vários bairros periféricos, bloqueando vias com pilhas de lixo em chamas, batendo em panelas e gritando "Acendam as luzes!" e "O povo, unido, nunca será derrotado!"

A agência Reuters testemunhou vários grupos de manifestantes pacíficos em diversos pontos da cidade, marcando a maior noite de manifestações em Havana desde que a crise energética se instalou.

Em meio ao caos, o país afirmou estar disposto a analisar uma proposta de ajuda de US$ 100 milhões (R$ 500 milhões) dos EUA, afirmou nesta quinta o ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez. "Estamos prontos para ouvir os detalhes da proposta e como ela seria implementada", disse um dia depois de o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, ter renovado a oferta de fornecer a ajuda, sujeita a condições.

A escassez e os apagões pioraram drasticamente desde janeiro, quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump ?que afirmou querer derrubar o regime comunista de Cuba? impôs um embargo e ameaçou aplicar tarifas sobre qualquer nação que fornecesse combustível ao país.

O Ministério de Energia e Minas cubano afirmou, no X, que houve uma desconexão do sistema elétrico entre as regiões de Ciego de Ávila e Guantánamo ?área equivalente ao menos a metade do país. O órgão afirmou estar trabalhando para restabelecer o serviço.

Rodolfo Alonso, morador de Havana, disse que decidiu protestar depois que seu bairro, Playa, ficou mais de 40 horas sem eletricidade. "Moro em uma comunidade onde há muitos idosos, muitos deles acamados. Nossa comida está estragando", disse Alonso, funcionário público. "Começamos a bater em panelas para ver se nos dariam apenas três horas de eletricidade. É tudo o que queremos. Isso não é um problema político."

Em vários casos, a Reuters testemunhou o retorno da energia elétrica a uma área onde ocorria um protesto, levando a multidão de homens, mulheres e crianças a comemorar e, em seguida, dispersar-se rapidamente.

Havia forte presença policial nos locais, embora as forças de segurança permanecessem em grande parte à margem, observando e sem intervir.

Irailda Bravo, 38, disse que decidiu participar de um protesto pacífico em Marianao depois de dormir na porta de casa por dias, forçada ficar para fora por causa do calor. "Sabemos que a situação no país é caótica. Mas temos filhos pequenos. Temos que trabalhar. Temos uma vida. Precisamos descansar, e não podemos", disse ela.

O ministro de Energia e Minas de Cuba afirmou no início do dia que o país havia ficado completamente sem diesel e óleo combustível, e que sua rede elétrica havia entrado em um estado "crítico". "Não temos absolutamente nenhum combustível (óleo) e absolutamente nenhum diesel", disse Vicente de la O Levy à mídia estatal. "Não temos reservas."

Os apagões aumentaram drasticamente nesta semana, com muitos bairros de Havana sem luz por 20 a 22 horas por dia, disse o ministro, aumentando as tensões em uma cidade já exausta pela escassez de alimentos, combustível e medicamentos.

O principal responsável pela energia do país disse que Cuba continua as negociações para importar combustível apesar do bloqueio, mas afirmou que o aumento dos preços globais do petróleo e do transporte, em consequência da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, está complicando ainda mais esse esforço. "Cuba está aberta a qualquer um que queira nos vender combustível", disse o ministro.

Nem o México nem a Venezuela, outrora principais fornecedores de petróleo para Cuba, enviaram combustível para a ilha desde a ordem de Trump ameaçando com tarifas.

Apenas um único grande petroleiro, o Anatoly Kolodkin, com bandeira da Rússia, entregou petróleo bruto a Cuba desde dezembro, proporcionando um alívio temporário à ilha em abril.

Os novos cortes de energia em Havana e arredores ocorrem no momento em que o bloqueio dos EUA às importações de combustível para Cuba entra em seu quarto mês, paralisando serviços públicos em toda a ilha caribenha de quase 10 milhões de habitantes.

Na semana passada, as Nações Unidas classificaram o bloqueio de combustível de Trump como ilegal, afirmando que ele havia obstruído o "direito do povo cubano ao desenvolvimento, ao mesmo tempo em que prejudicava seus direitos à alimentação, educação, saúde, água e saneamento".