Libaneses no Brasil vivem drama de parentes sob bombardeios de Israel
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Não sobrou nada, nem um dedo, nada." Com a voz serena e os olhos mirando o vazio, Hussein Nahle narra a morte do sobrinho Abas, 22, vítima de um bombardeio de Israel na aldeia de Taybeh, no sul do Líbano.
Hussein, 60, é dono de uma pequena loja de esfirras em Perdizes, na zona oeste de São Paulo. Ele diz que o sobrinho fora visitar um amigo que se recusou a acatar a ordem de retirada emitida pelo Exército israelense. "A vila estava quase vazia, então o avião viu os dois e jogou bomba neles."
Taybeh, vila de maioria xiita na fronteira de Israel, foi esvaziada e demolida. Dentre os 15 mil moradores desalojados, estão as famílias de três irmãos de Hussein: Wafa, mãe de Abas, deslocou-se para Brumana, nas cercanias de Beirute; Wafik e Rafik foram acolhidos por conhecidos em Trípoli, no norte do país.
O drama de Hussein não é uma excepcionalidade. O Brasil é o país que mais recebeu imigrantes da diáspora libanesa, em ondas que se repetem desde o fim do século 19. Entre imigrantes e descendentes, a Associação Cultural Brasil-Líbano estima o tamanho da comunidade em cerca de 8 milhões de pessoas. Muitas dessas famílias, em especial quem veio nas levas mais recentes, mantêm contato próximo com quem ficou no Líbano.
Para elas, a ação militar de Israel no sul do país, com o objetivo declarado de lutar contra o grupo extremista Hezbollah, é bem mais do que vídeos e infográficos no noticiário. Hussein, que mora no Brasil desde 1997 e é casado com uma brasileira, manda todos os dias ao acordar mensagens para saber se está tudo bem com os irmãos.
Nem sempre a resposta é positiva. "Os soldados israelenses entraram nas casas e levaram tudo o que conseguiram pegar, televisão, moto, coisas pequenas", afirma o comerciante. Depois de pilhados, diz ele, os domicílios foram implodidos pelos militares.
A professora da USP Safa Jubran, 63, também mantém o ritual matinal de buscar notícias tranquilizadoras dos parentes que ainda vivem do outro lado do mundo.
"A guerra impactou drasticamente suas vidas: membros da mesma família ficaram separados quando Israel bombardeou os acessos às cidades do sul. Eles ficaram sem água e sem energia elétrica, vivendo com medo, sem perspectiva e sem saber o que o futuro reserva", diz ela à reportagem.
Ela imigrou em 1983, um dos anos mais dramáticos da guerra civil libanesa. A docente conta que, desde o início da mais recente onda de ataques contra seu país de origem, não consegue se desligar do noticiário. "Isso acaba prejudicando minha concentração no trabalho" --trabalho este que demanda muita concentração: Safa é uma das mais importantes tradutoras da língua árabe no Brasil.
O impacto não se restringe aos libaneses que vivem por aqui, mas também a filhos e netos já nascidos brasileiros. "Eu acho tudo muito triste", afirmou o escritor Milton Hatoum, 73, em recente entrevista à rádio CBN. Manauara, ele afirmou ter recebido imagens da casa de um primo que "dá vontade de chorar, porque não sobrou nada".
A diáspora histórica levou à criação de uma também relevante comunidade de brasileiros no Líbano, de cerca de 20 mil pessoas. No dia 26 de abril, uma tragédia atingiu essa comunidade, quando uma mãe e seu filho de 11 anos foram mortos por um bombardeio israelense. Eles visitavam a casa que a família tinha abandonado após ordens de Tel Aviv para retirada no sul do país. Apesar do cessar-fogo, a residência foi alvejada, matando os dois e ferindo o pai, libanês, e outro filho.
A professora Safa diz que gostaria que a resposta do governo brasileiro fosse "mais clara, firme e contundente". "O posicionamento foi tímido diante da gravidade da situação, especialmente considerando que brasileiros também perderam a vida nos bombardeios", afirmou.
O Itamaraty emitiu uma nota afirmando que o ataque foi "mais um exemplo das reiteradas e inaceitáveis violações ao cessar-fogo anunciado em 16 de abril, as quais já resultaram na morte de dezenas de civis libaneses, incluindo mulheres e crianças, assim como de uma jornalista e de dois integrantes franceses da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (Unifil)".
No papel, Líbano e Israel estão sob um cessar-fogo que, no entanto, nunca de fato silenciou os combates. A ofensiva começou com ataques do Hezbollah ao vizinho do sul em apoio ao Irã, por sua vez, alvo de ofensiva de Washington e Tel Aviv a partir do dia 28 de fevereiro.
Enquanto não há uma perspectiva clara de fim das hostilidades, apesar da trégua prorrogada nesta sexta-feira (15) por mais 45 dias. A comunidade libanesa no Brasil segue, aflita, na espera por boas notícias. É uma "mistura de sentimentos: tristeza, raiva, indignação e impotência", resume Safa.
Hussein oferece à reportagem uma esfirra de queijo -"come, acabou de sair do forno"- antes de contar que tentou convencer os irmãos a virem para o Brasil, mas a oferta foi recusada. "Nenhum deles quis deixar a família lá", afirma. "E trazer todo mundo é caro demais para quem já perdeu tudo."