Cortes de ajuda dos EUA e do Reino Unido afetam resposta a surto de ebola
SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - A resposta ao surto de ebola no leste da República Democrática do Congo foi enfraquecida por cortes de ajuda dos Estados Unidos e do Reino Unido.
Trabalhadores da saúde e organizações humanitárias tentam conter a doença em Ituri e em Goma, onde o vírus já se espalha por áreas com conflito, baixa estrutura sanitária e acesso limitado a serviços médicos. Greg Ramm, diretor do Save the Children no país, disse ao jornal britânico The Independent que não há equipamentos suficientes, nem cloro, luvas ou proteção adequada. "Neste ponto, está muito longe de estar sob controle", afirmou.
As autoridades congolesas e a OMS (Organização Mundial da Saúde) informam mais de 600 casos suspeitos e ao menos 139 mortes suspeitas no país. Uganda confirmou dois casos importados, incluindo uma morte, e um americano foi levado para tratamento na Alemanha.
O surto é o mais grave no leste do Congo desde 2018. A cepa em circulação, Bundibugyo, não tem vacina licenciada nem teste rápido de diagnóstico, o que atrasou a confirmação dos casos. Em Ituri, os primeiros testes locais deram negativo porque eram voltados para a cepa Zaire, mais conhecida.
Em Goma, Chantal, que dirige a clínica Jericho Road, disse que a equipe soube dos casos por mensagem de WhatsApp, e não por alerta formal. "Foi no último sábado (16/5) que recebemos informação via WhatsApp de que havia casos positivos em Goma. Ligamos para o Departamento de Saúde Pública para verificar", afirmou.
Rory Stewart, ex-ministro britânico para a África, disse à BBC Radio 4 que a ligação entre os cortes de ajuda e o risco de surtos é "muito forte". "A preparação para pandemias exige muitas pessoas no terreno, capazes de detectar casos, responder, isolar e preparar ações", disse.
A OMS informou que o surto foi confirmado em 14 de maio e declarou a emergência de saúde pública de importância internacional no fim de semana. Jean Pierre Badombo, ex-prefeito de Mongbwalu, disse à Reuters que os casos começaram após um funeral com caixão aberto em abril. "Depois disso, vivemos uma cascata de mortes", afirmou.
Agências de ajuda também alertam para o impacto das restrições orçamentárias sobre a vigilância sanitária. O financiamento para água e saneamento no Congo caiu 73% no último ano, segundo a OMS, e grupos humanitários dizem que a redução da assistência internacional deixou o sistema de saúde mais fraco para detectar e conter a doença.
Para Ramm, o maior risco vai além do ebola. "Se os centros de saúde fecharem, ou se as pessoas pararem de ir porque acham que é onde vão morrer, uma criança com malária não vai receber tratamento", disse. "Uma criança desnutrida não vai receber tratamento."
Em Goma, Chantal disse que continua atendendo pacientes todos os dias. "O que nos assusta é o aumento dos casos e um lockdown", afirmou.