Lula diz ter se preocupado com possibilidade de ser destratado por Trump

Por CAIO SPECHOTO E ISADORA ALBERNAZ

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse nesta sexta-feira (22) ter se preocupado com a possibilidade de ser destratado em público ao visitar o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Em entrevista ao programa Sem Censura, da TV Brasil, ele mencionou situações em que Trump atacou líderes estrangeiros e disse que, por isso, pediu que não fosse liberado à imprensa o acesso a partes do encontro com o americano.

Lula esteve com seu homólogo americano na Casa Branca no início do mês, em uma visita que foi considerada um sucesso por seu grupo político. Trump elogiou o brasileiro depois da conversa, mas eles não deram declarações à imprensa juntos.

Ambos estão em campos opostos da política. No passado, Tump criou situações constrangedoras para os presidentes da África do Sul, Cyril Ramaphosa, e da Ucrânia, Volodimir Zelenski, em visitas deles à Casa Branca.

Ao receber o sul-africano em maio de 2025, Trump tentou encurralá-lo fazendo acusações sobre um suposto "genocídio branco" que estaria em curso no país de Ramaphosa. O americano chegou a pedir que as luzes do Salão Oval fossem apagadas para exibir imagens de violência ao visitante.

Com o presidente ucraniano, em fevereiro de 2025, o cenário foi ainda mais vexaminoso. Em uma cena nunca vista em público no Salão Oval, os dois líderes bateram boca sobre os rumos da Guerra da Ucrânia, levando o visitante a deixar o encontro sem a prevista entrevista coletiva.

"Quando eu encontrei com o Trump na Malásia ele chamou a imprensa toda, coisa que eu não quero. Só pode ter imprensa depois que a gente conversar. Por que a imprensa? Eu ficava preocupado de ele querer fazer o mesmo que ele fez com o presidente Ramaphosa da África do Sul ou com o da Ucrânia", disse Lula.

"Agora, lá, também ele queria chamar a imprensa no Salão Oval antes de a gente conversar. Eu falei ?não, para que? Primeiro vamos conversar. Eu tenho assuntos de interesse do Estado brasileiro para conversar com você, que tem assuntos do interesse do Estado americano. Vamos tirar nossas diferenças e depois a gente dá entrevista?. Aí uma coisa que era para ter 1h15 ficou em 3h e depois ele falou ?não vamos dar entrevista não?", disse Lula.

A conversa entre Lula e Trump nos Estados Unidos foi principalmente sobre tarifas. No ano passado, o presidente americano estabeleceu taxas extras sobre produtos brasileiros exportados para o mercado americano.

As autoridades brasileiras conseguiram reverter os principais pontos do tarifaço, mas a ameaça de novas taxações ainda não foi eliminada. Lula conseguiu um prazo de 30 dias para discutir as cobranças.

Há uma investigação sendo realizada pelas autoridades de comércio dos Estados Unidos com alvos como o Pix e o comércio da rua 25 de Março, em São Paulo. Autoridades brasileiras acreditam que o resultado dessa apuração será usado para tentar extrair concessões do Brasil.

Autoridades brasileiras tentam direcionar as negociações de forma a postergar temas em que acordos são improváveis. Por exemplo: a ideia do Brasil é deixar para depois conversas sobre o comércio de etanol e aço, que causam divergência com os Estados Unidos há anos.

No lugar das áreas mais controversas, o governo Lula tenta concentrar as negociações com Estados Unidos em produtos americanos que interessam ao Brasil. O exemplo dado à reportagem foi o de equipamentos de saúde.

O governo brasileiro aceita reduzir tarifas sobre esses itens para que eles sejam usados no SUS e em hospitais particulares por preços mais baixos. Essa lógica pode interessar aos americanos porque aumentaria as exportações desses produtos, que têm alto valor agregado.