Irã acusa EUA de sabotarem negociações; Trump publica mapa com país persa sob bandeira americana

Por Folhapress

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O principal negociador do Irã, o presidente do Parlamento persa, Mohammad Ghalibaf, afirmou neste sábado (23) ao chefe do Exército do Paquistão, Asim Munir, em Teerã, que os Estados Unidos não negociam com honestidade para encerrar a guerra e que seu país não cederia seus direitos, informou a TV estatal iraniana.

Ghalibaf diz ainda que as Forças Armadas do país reconstruíram suas capacidades militares durante o cessar-fogo e que, se os EUA "reiniciarem a guerra de forma insensata", as consequências seriam "mais contundentes e amargas" do que no início do conflito.

Um esforço de mediação regional liderado por Islamabad tenta reduzir as diferenças entre o Teerã e Washington após semanas de guerra que deixaram o estreito de Hormuz bloqueado para a maior parte das embarcações cruzando a via marítima, ainda que em meio a tenso e frágil cessar-fogo.

A mídia estatal iraniana informou que Munir também se reuniu com o presidente do país, Masoud Pezeshkian, na presença do chanceler iraniano, Abbas Araqchi, com quem teve duas reuniões antes de deixar o Irã.

A boa relação de Munir com o presidente americano, Donald Trump, é frequentemente relembrada pelo republicano, que trata o marechal paquistanês como seu principal interlocutor no país e na mediação do conflito com o Irã.

Também neste sábado, Trump publicou a imagem de um mapa do Oriente Médio em que mostra o Irã pintado com a bandeira americana sob o título "Estados Unidos do Oriente Médio?" Washington estaria considerando novos ataques contra Teerã, de acordo com a imprensa americana.

Segundo a rede CBS News, as Forças Armadas dos EUA já se preparam para possíveis bombardeios durante o fim de semana ou na segunda-feira, que é feriado no país ?o chamado Memorial Day, que homenageia militares americanos mortos em combate.

Na sexta-feira, Trump reuniu seus assessores para discutir a guerra, acrescentou o site Axios. O presidente disse também que não iria ao casamento de seu filho, Donald Trump Jr., porque disse "sentir ser importante que ficasse em Washington, na Casa Branca, durante esse período importante".

Em conversa com o secretário-geral da ONU, António Guterres, o chanceler iraniano reclamou das "posições contraditórias e repetidas exigências excessivas" de Washington, segundo as agências de notícias Tasnim e Fars, ligadas à Guarda Revolucionária iraniana.

Esses fatores "perturbam o processo de negociação conduzido sob mediação do Paquistão", afirmou o ministro persa.

As negociações até o momento têm se concentrado em um documento de 14 pontos proposto pelo Irã, que o considera a principal estrutura para as discussões, e em mensagens trocadas entre os dois lados.

Ghalibaf afirma ainda que o Irã buscaria seus "direitos legítimos", tanto no campo de batalha quanto por meio da diplomacia, e acrescentou que não poderia confiar em "uma parte que não tem honestidade alguma".

Declarações semelhantes já foram dadas outras vezes pelo Irã ao se referir a Washington, em particular após os EUA se juntarem a Israel nos ataques que deram origem ao conflito em fevereiro, à época também em meio a negociações.

Em visita à Índia, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, afirmou o Irã pode aceitar um acordo ainda neste sábado. "Há uma chance de que tenhamos algo a dizer mais tarde, amanhã ou em uns dois dias", afirmou a repórteres em Nova Délia. Já o Ministério das Relações Exteriores do Irã disse que as diferenças entre as partes permaneciam profundas e significativas.

Apesar de semanas de conflito, o Irã preservou seu estoque de urânio enriquecido próximo ao grau de armamento, assim como capacidades de mísseis, drones e financiamento de grupos aliados que os EUA e Israel querem que sejam extintos.

O Qatar, que foi severamente afetado pela guerra com ataques a seu território e disrupções de instalações energéticas, além de outros países da região, intensificam simultaneamente os esforços de mediação alternativa.

Teerã confirmou a visita de uma delegação da monarquia qatari na sexta-feira. Segundo o jornal britânico The Guardian, cinco países do golfo (Kuwait, Bahrein, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, além do Qatar), enviaram uma carta à Autoridade Marítima Internacional, um órgão de fiscalização, pedindo que embarcações comerciais não aceitem medidas estipuladas pelo Irã para Hormuz.

Teerã criou uma autoridade de governança para o estreito que, na prática, funciona como um limitador do fluxo a partir do controle militar da via marítima. Entre as determinações do órgão iraniano estão as áreas delimitadas para atuação das Forças Armadas do país persa no estreito, exigindo que navios desviem sua rota para transitar por áreas em que o Irã pode controlar e cobrar taxas.

Na carta, os países árabes afirmam que aceitar as medidas criaria um precedente perigoso para navegação regional e mundial.