Extremista de esquerda que se escondeu em comunidade brasileira em Berlim é condenada a 13 anos na Alemanha

Por JOSÉ HENRIQUE MARIANTE

BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - Daniele Klettle, extremista de esquerda que se escondeu por décadas em uma comunidade brasileira em Berlim, foi condenada nesta quarta-feira (27) a 13 anos de prisão pelo Tribunal Regional de Verden, no norte da Alemanha. A pena se refere a seis acusações de roubo qualificado, extorsão e outros crimes, cometidos de 1999 a 2016.

Klettle, hoje com 67 anos, nega a participação no assalto a um carro-forte em Cremlingen, no estado da Baixa Saxônia, peça principal da acusação. Em uma operação violenta, com tiros disparados contra seguranças da empresa de valores, ? 1,3 milhão (R$ 7,57 milhões) foram levados. Não houve vítimas, mas um dos seguranças, com crise de ansiedade, morreu mais tarde em um hospital psiquiátrico.

Os advogados de defesa contestam a versão, afirmando que o julgamento tinha motivações políticas. Klette, identificada pelas autoridades como ex-integrante do grupo terrorista Facção Exército Vermelho (RAF, na sigla em alemão), passou décadas foragida. Os roubos mais recentes, segundo a Promotoria, foram realizados para custear a clandestinidade.

Outros dois ex-integrantes da RAF acusados de participarem dos assaltos, Burkhard Garweg e Ernst-Volker Staub, continuam na lista de procurados da polícia alemã.

"Promotores de Justiça da Alemanha temem que o grupo esquerdista Facção Exército Vermelho (RAF), que realizou uma campanha de terror nos anos 70 e 80, possa estar ressurgindo", informava esta Folha em 21 de maio de 2001. Análises tinham encontrado DNA de Klette e Staub na cena de um outro assalto, em Duisburg, dois anos antes.

No mesmo dia, o Ministério Público esclareceu que não havia evidências do ressurgimento da atividade terrorista do grupo, apenas da operação de custeio dos foragidos. Em 1998, a RAF divulgou um manifesto em que renunciava à luta armada, que deixou fortes cicatrizes na sociedade alemã.

Klettle, então, compunha a terceira geração de um grupo criado à margem dos movimentos sociais de 1968. A primeira geração da facção, conhecida pelo sobrenome de seus fundadores, Baader-Meinhof, é responsabilizada por ao menos 34 mortes ocorridas em diversos ataques terroristas de 1970 a 1991.

Dois episódios protagonizados pelo grupo foram especialmente marcantes: o sequestro de um avião da Lufthansa por terroristas palestinos, que buscava liberar integrantes do Baader-Meinhof presos na Alemanha, em 1977, e o assassinato de Alfred Herrhausen, CEO do Deutsche Bank, em 1989.

Presa em 2024 após um jornalista canadense usar inteligência artificial para comparar fotos antigas com imagens encontradas na internet, Kletter foi identificada em meio a um grupo de capoeira de Berlim, em uma publicação feita em rede social.

Segundo reportagens da imprensa alemã, Kletter morava em Kreuzberg, bairro boêmio da capital alemã, com histórico de abrigar imigrantes. Adotou até um nome brasileiro, Cláudia Ivone.

"Eu não conheço Daniela Klette, eu conheço a Cláudia. Ela era como uma irmã para mim", declarou à emissora WDR Emerson Gomes da Silva, que morou em Berlim e voltou para o Brasil nos anos 2000. Klette, inclusive, viajou para o país para visitá-lo.

Emerson contou que chegou a desconfiar das histórias da amiga, mas que ela sempre respondia que "todo mundo tem um segredo".

Perto do fim do julgamento, Klette, sem assumir culpa pelas acusações, afirmou que lamentava o trauma causado às vítimas, mas que isso era produto do capitalismo e do imperialismo. Denunciada por crimes do começo da década de 1990, a ex-integrante da RAF deve voltar ao banco dos réus nos próximos meses.