Petro diz que não aceita resultados de apuração prévia na Colômbia, que coloca apadrinhado em 2º lugar

Por DANIELA ARCANJO

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, afirmou neste domingo (31) que não aceita os resultados da contagem preliminar das eleições que mostra seu apadrinhado, o senador Iván Cepeda, atrás do líder, o ultradireitista Abelardo de la Espriella.

Com 100% das urnas pré-apuradas, seu aliado aparece com 40,9% dos votos, quase três pontos percentuais a menos do que Espriella (43,7%). Trata-se de uma surpresa em relação às últimas pesquisas de intenção de voto, divulgadas há uma semana, que mostravam Cepeda mais de dez pontos à frente do ultradireitista. O resultado preliminar, no entanto, confirma a ascensão que o outsider vinha registrando.

"Como presidente, não aceito os resultados da contagem preliminar da empresa privada pertencente aos irmãos Bautista", afirmou Petro, em referência à Thomas Greg & Sons, companhia de Felipe, Camilo e Fernando Bautista.

A desavença com a empresa, uma das maiores prestadoras de serviço para o Estado colombiano, remonta a uma crise de 2023, quando companhias saíram em massa de um processo de licitação para produção de passaportes sob o argumento de que o procedimento estava viciado para favorecer a Thomas Greg & Sons, que imprimia os documentos desde 2007.

Desde esse episódio, Petro criticou a companhia em várias oportunidades. Não foi diferente nessas eleições, já que a Thomas Greg & Sons tem participação no consórcio Integración Logística Electoral 2026, contratada pelo Estado para parte do processo de apuração.

"Estamos em um imenso perigo de fraude eleitoral", afirmou o presidente em fevereiro deste ano, contradizendo especialistas, que veem um sistema eleitoral confiável na Colômbia.

Em outras ocasiões, pediu para observadores registrarem denúncias sempre que vissem algo suspeito e relembrou que, em 2022, seu partido, o Pacto Histórico, aparecia com 16 cadeiras na apuração preliminar e terminou com 19 após o escrutínio oficial.

"Atualmente, existem dois censos: o oficial e o produzido pelo software dos irmãos Bautista, que inclui 800 mil pessoas. As seções eleitorais que já foram contestadas demonstram que centenas de milhares de votos foram adicionados sem a existência de eleitores registrados", afirmou Petro no X.

Em um discurso durante a noite, Cepeda ecoou seu padrinho, mas citou número ainda maior. "Há uma discrepância que queremos verificar em relação ao cadastro eleitoral. E não se trata de uma discrepância pequena. Estamos falando de 885 mil pessoas ou fichas de inscrição eleitoral. Como levamos isso a sério, queremos que isso seja esclarecido", afirmou, em Bogotá.

"Hoje tivemos 10 milhões de votos mal contados na Colômbia. Somos a principal força política, sem dúvida", disse também. "Só quando as comissões de escrutínio deixarem tudo isso esclarecido nós vamos nos pronunciar sobre o resultado desta noite."

A contagem preliminar é a primeira apuração dos votos realizada pelas autoridades eleitorais, e seu objetivo é informar o público sobre os resultados no dia da eleição. Os números só terão força legal, porém, após a confirmação pela contagem oficial. Geralmente a apuração final demora alguns dias e coincide com a contagem preliminar, embora diferenças sejam possíveis justamente pelos mecanismos de correção existentes.

Em seu relatório, a Missão de Observação Eleitoral da Colômbia cita possível coação de grupos armados e incidentes como propaganda eleitoral irregular, mas não menciona as denúncias dos candidatos. O órgão também destaca a rapidez da apuração preliminar, conforme as simulações, e diz que a contagem é "apenas para fins informativos".

Em abril, em meio aos ataques de Petro, o diretor de gestão eleitoral, Rafael Vargas, afirmou que o Registro Nacional apenas gerencia o processo eleitoral. "Os mais de 850 mil mesários são as pessoas para quem entregamos esse voto de confiança", disse. "Se eu duvido de 850 mil colombianos, eu duvido do meu vizinho, do meu familiar, dos meus amigos."

Ele afirmou ainda que o software, principal alvo de desconfiança de Petro, é uma ferramenta para ajudar a consolidar os registros, mas que por meio dele não é possível alterar resultados. "No final, todos os dados finais estão registrados em atas, à mão", disse Vargas.

A diretora para as Américas da Human Rights Watch, Juanita Goebertus, saiu em defesa do sistema eleitoral colombiano. "A Colômbia possui um sistema eleitoral independente e confiável. É lamentável que o presidente esteja semeando dúvidas injustificadas. Espriella e Cepeda vão para o segundo turno", afirmou ela no X. "A comunidade internacional deve apoiar o Registro Nacional."