Entenda protestos que paralisaram Bolívia e já derrubaram três ministros
BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Ruas vazias, aulas virtuais e escassez de alimentos, combustíveis e medicamentos. Parece uma cidade em lockdown na pandemia de Covid-19, há seis anos, mas esta é La Paz de 2026 após um mês sitiada por protestos que, entre outras reivindicações, pedem a renúncia do recém-eleito presidente da Bolívia, Rodrigo Paz.
As manifestações, que começaram com uma greve em maio e evoluíram para bloqueios que obstruem dezenas de estradas em todo o país, já têm um saldo de dez mortos, de acordo com relatos ?incluindo sete pessoas que não teriam conseguido atenção médica devido à paralisação.
O QUE MOTIVOU OS PROTESTOS?
Paz chegou ao poder com uma grave escassez de combustível e dólares, uma recessão que derrubou o PIB em 1,58% em 2025 e a maior inflação do país em quase 40 anos. Primeiro presidente de direita após duas décadas de domínio da esquerda, o político assumiu com a promessa de "capitalismo para todos", reduzindo gastos públicos e aplicando medidas como a retirada dos subsídios dos combustíveis.
Os protestos, no entanto, revelam dinâmicas que explicam boa parte da política boliviana.
Em primeiro lugar, a questão étnica. "É uma ferida colonial, como alguns a chamam, entre o mundo indígena e o mundo branco. Essa ferida deveria ter cicatrizado com o Estado plurinacional, mas não cicatrizou", diz Franz Flores, professor da Universidade San Francisco Xavier, em Sucre, em referência à forma como o país se organizou a partir da Constituição de 2009. "Essa questão continua emergindo em momentos históricos, e às vezes o faz de uma forma muito dolorosa e radical, como agora."
Em segundo lugar, a polarização que divide, inclusive geograficamente, a esquerda em La Paz e a direita em Santa Cruz de La Sierra, capital do departamento de Santa Cruz e centro comercial da nação. Esse padrão foi quebrado nas eleições que levaram Paz ao poder, em outubro ?na ocasião, o presidente surpreendeu e ganhou com a ajuda de antigos redutos do ex-presidente Evo Morales, que escolheram o político em detrimento do também direitista Jorge Quiroga.
"Em vez de seguir os eleitores que o levaram à Presidência, ele se alinhou cada vez mais com Santa Cruz e seus líderes empresariais", afirma Flores, citando, por exemplo, a eliminação do imposto sobre grandes fortunas, no final de 2025.
Para parte dos bolivianos, essa postura representou uma traição. Esse sentimento foi concretizado pela ruptura entre Paz e seu vice-presidente, Edmand Lara Montaño ?foi o companheiro de governo do presidente, um ex-policial, que atraiu grande porção desses votos, colocando-se como "a garantia" da chapa. "Nesse momento, Paz rompeu com o mundo popular", diz o pesquisador.
Essa sensação foi sintetizada em um discurso de Mario Argollo, secretário executivo do Centro Operário Boliviano, a manifestantes reunidos em El Alto, na terça-feira (2). "O governo central não aproveitou a oportunidade de se reconciliar com seu povo, com aqueles 54% que o levaram ao poder. Infelizmente, uma vez no poder, ele se esqueceu de sua base eleitoral".
QUEM SÃO OS MANIFESTANTES E QUAIS SÃO SEUS MÉTODOS?
Os manifestantes são formados por sindicatos, professores, mineiros, organizações indígenas e movimentos sociais ?em resumo, grande parte dos setores de esquerda da Bolívia.
Como já ocorreu em outros ciclos de protesto, várias estradas no país estão obstruídas. O número de bloqueios, que no começo de maio estavam em 12, concentrados em La Paz e Beni, passavam de 90 nesta quarta-feira (3) e haviam se espalhado para sete dos nove departamentos.
"Na Bolívia, eu bloqueio, tu bloqueias, ele bloqueia, nós bloqueamos. Todos os setores participam de bloqueios ou planejam participar em algum momento para reivindicar seus direitos. Mas o que diferencia o de agora é que, ao contrário dos anteriores, ele está causando ampla rejeição pública", afirma Flores.
Parte da rejeição está no radicalismo dos protestos, que têm bloqueado até mesmo insumos de primeira necessidade e ambulâncias, segundo relatos. De acordo com o governo, sete pessoas morreram por falta de atenção médica causada pelos protestos ?a última, uma menina de 12 anos que tratava um câncer, segundo a Associação de Voluntários Contra o Câncer Infantil.
QUAIS SÃO AS DEMANDAS DOS MANIFESTANTES?
Os protestos começaram com uma greve de trabalhadores com demandas relacionadas à economia, principalmente. Os professores, por exemplo, pediam reajustes de salários; os mineiros se posicionaram contra a privatização do lítio, embora o presidente tenha negado esse plano. Agora, porém, o que se ouve nas ruas são gritos de "renuncia, Paz".
Para Flores, os protestos são também reflexo de um setor impaciente para voltar ao poder, uma vez que ainda há margem para diálogo. "Não querem entrar em nenhum tipo de negociação. Eles simplesmente se isolaram, focando a exigência de fazer Rodrigo Paz renunciar e ponto final", diz o pesquisador.
QUE CONSEQUÊNCIAS OS PROTESTOS TIVERAM ATÉ AGORA?
As perdas econômicas estão na casa dos bilhões de dólares, segundo organizações do setor. A Câmara Nacional de Indústrias, por exemplo, fala em uma baixa de US$ 2 bilhões; a Confederação Nacional de Micro e Pequenos Empresários, por sua vez, menciona US$ 700 milhões de perda para o setor.
Além disso, as manifestações afetaram as aulas no país, especialmente em La Paz e El Alto, as cidades mais impactadas. O diretor do Departamento de Educação de La Paz, Víctor Sirpa, afirmou que 65% dos alunos estavam em aulas remotas, e os outros 35% estavam em modalidades mistas.
Por fim, os protestos já causaram, direta ou indiretamente, dez mortes, de acordo com a agência de notícias EFE. Além das sete mortes por emergências médicas não atendidas, dois manifestantes e um jovem baleado em uma operação para desbloquear uma via.
COMO RODRIGO PAZ TEM LIDADO COM A CRISE?
Os impactos na economia e no cotidiano da população encurralaram o presidente. Se as ruas pedem a sua renúncia, o Legislativo o pressiona para reprimir as manifestações. Na semana passada, governistas e opositores da Assembleia aprovaram uma mudança que facilita o emprego das Forças Armadas para conter manifestações.
Ao mesmo tempo em que Paz critica os manifestantes ("não vou dialogar com vândalos", afirmou o presidente no mês passado), tenta abrir mesas de negociação e anunciou uma reforma ministerial para ter uma equipe "mais ágil, mais próxima e com maior capacidade de escuta".
"Precisamos reorganizar um gabinete que não apenas administre, mas que também ouça os cidadãos", disse na ocasião. Três ministros (Educação, Defesa e Trabalho) caíram desde o início dos protestos.
Até agora, as tentativas de diálogo, mediadas por ativistas de direitos humanos, Igreja Católica, Defensoria e Lara, o vice-presidente, fracassaram.
A declaração desta quarta do advogado de Evo Morales, Marcelo Galván, é pouco motivadora. "Aqui o problema não é quem vem mediar, pode vir até o papa. A atitude soberba, teimosa do presidente Rodrigo Paz fez com que, neste momento, nem mesmo os líderes tenham capacidade de decisão, porque a base mobilizada já não acredita", afirma.