Mosteiro histórico ucraniano pega fogo em ataque russo que mata 11, dizem autoridades
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Pelo menos 11 pessoas morreram na Ucrânia em um novo ataque russo em larga escala na madrugada desta segunda-feira (15), especialmente intenso sobre Kiev, onde o mosteiro Kyiv Pechersk Lavra, símbolo da história cultural ucraniana, pegou fogo.
Os novos ataques ocorreram após o presidente ucraniano Volodimir Zelenski afirmar no domingo (14) que havia conversado com o presidente dos EUA, Donald Trump, e discutido esforços para alcançar o fim do conflito de mais de quatro anos, antes de uma reunião do G7 na França esta semana.
Em Kiev, os bombardeios russos atingiram vários bairros da cidade e provocaram pelo menos cinco mortes, segundo as autoridades, que também anunciaram 34 feridos.
Outras cinco pessoas, quatro integrantes dos serviços estatais de emergência e um funcionário do governo municipal, morreram na cidade de Kharkiv, nordeste do país, segundo o ministro do Interior, Igor Klimenko. Uma pessoa morreu em Kherson, no sul.
Na Rússia, três pessoas morreram na cidade de Tula, quase 200 km ao sul de Moscou, em um ataque ucraniano com drones, segundo o governador regional.
O mosteiro Kyiv Pechersk Lavra, no centro de Kiev, patrimônio mundial da Unesco fundado em 1051, foi seriamente danificado em um ataque direto, disse Tymur Tkachenko, chefe da administração militar da capital, em uma publicação no Telegram.
A Unesco condenou o ataque em um comunicado e afirma que ele "causou danos significativos no exterior e no interior da Catedral da Dormição" e em seus arredores. A organização afirmou que está à disposição das autoridades para ajudar a avaliar os danos.
A Rússia negou o ataque ao mosteiro e afirmou que um míssil do sistema de defesa aérea Patriot, de fabricação americana, teria danificado o local religioso. Moscou disse que seu ataque teve como alvo e atingiu instalações de fabricação de drones.
"Segundo informações confirmadas, o complexo de edifícios do Kiev-Pechersk Lavra foi atingido por um míssil do sistema de defesa aérea americano Patriot. Uma possível razão para o mau funcionamento desse sistema pode ser o fato de países ocidentais terem fornecido ao regime de Kiev mísseis com prazo de validade expirado", afirmou o Ministério da Defesa russo em um comunicado.
Zelenski disse que a Rússia atacou "deliberadamente" com dois drones a área do complexo monástico.
Uma das fachadas da catedral ficou destruída e o telhado parcialmente danificado. Mais de 10 caminhões de bombeiros foram enviados ao local.
O presidente ucraniano classificou o ataque ao mosteiro como um grave crime contra a cultura cristã.
"Um ataque russo ao Kyiv-Pechersk Lavra incendiou a Catedral da Dormição ?uma igreja cuja história remonta ao século 11. E este é um dos crimes mais graves da Rússia contra a cultura cristã até o momento", disse no X.
Ele também pediu aos países do G7 que aumentem a pressão sobre a Rússia e ampliem a ajuda à defesa aérea da Ucrânia.
O ataque é totalmente injustificável, disse o presidente francês Emmanuel Macron, acrescentando que a França continuará trabalhando por um cessar-fogo na guerra durante a reunião do G7.
"Este ataque só justifica nossa determinação em fazer tudo o que pudermos, junto com nossos aliados e parceiros, para trabalhar por um cessar-fogo e depois por um acordo de paz, que a Rússia está teimosamente recusando. Trabalharemos nisso no G7 em Evian", escreveu Macron no X.
"Um ataque brutal contra nosso povo e nosso patrimônio. Esta é a verdadeira face dos valores ortodoxos da Rússia", disse a primeira-ministra ucraniana Yulia Svyrydenko no X.
Enquanto enormes chamas se erguiam sobre o mosteiro, moradores se abrigaram no subsolo no pior ataque russo à Ucrânia desde o início de junho, quando drones e mísseis mataram mais de 20 pessoas e deixaram mais de 100 feridas.
Drones e mísseis atingiram vários prédios residenciais e danificaram linhas de eletricidade, deixando cerca de 140.000 moradores sem energia, segundo autoridades de Kiev.
"O que mais o Anticristo do Kremlin precisa fazer para que o mundo perceba que medidas decisivas devem ser tomadas para que o terror russo contra a Ucrânia e os próprios princípios de paz cheguem ao fim?", disse o Metropolita Epifânio, chefe da Igreja Ortodoxa da Ucrânia, no X.
A vizinha Polônia, membro da União Europeia e da Otan, acionou caças nesta segunda contra uma possível incursão no espaço aéreo, antes de cancelar o alerta e afirmar que nenhuma violação havia sido registrada, disseram as Forças Armadas em uma publicação no X.
A Ucrânia estaria "iniciando urgentemente" procedimentos junto à Unesco e outros mecanismos internacionais para garantir "respostas imediatas e adequadas a essa barbárie estatal", disse o ministro das Relações Exteriores Andrii Sybiha, em referência ao ataque ao mosteiro, com o ministro das Relações Exteriores da Estônia, Margus Tsahkna, também condenando os ataques russos.
A maior parte do território ucraniano estava sob alertas de ataque aéreo nas primeiras horas desta segunda, e drones ucranianos estavam sendo repelidos sobre a Rússia enquanto ambos os países continuavam a trocar ataques.
A Ucrânia intensificou recentemente os ataques a instalações industriais e energéticas russas, enquanto tenta privar Moscou de receitas e acelerar o fim da guerra.
A Ucrânia também agiu durante a noite para cortar o fornecimento à península da Crimeia, no Mar Negro, anexada pela Rússia em 2014 e já enfrentando uma crise de combustível, atingindo duas pontes que a conectam às áreas controladas pela Rússia.
Antes de sua conversa com Trump, Zelenski havia proposto negociações diretas com o presidente russo Vladimir Putin para uma solução de cessar-fogo envolvendo os EUA e a Europa ?algo que Reino Unido, Alemanha e França apoiaram, mas Putin rejeitou.
O Kremlin afirmou no domingo (14) que Trump disse ao líder russo que acabar com o conflito na Ucrânia era vital e que ele estava pronto para ajudar.
O progresso em direção a um acordo de paz na Ucrânia tem sido lento, com autoridades americanas e mediadores concentrados no conflito no Oriente Médio. Autoridades americanas e iranianas disseram no domingo que haviam concordado com um marco de paz para encerrar a guerra, com o pacto previsto para ser oficialmente assinado na sexta-feira (19) na Suíça.