O que acontece após a assinatura do acordo entre EUA e Irã?

Por Folhapress

SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - O acordo assinado ontem por EUA e Irã abre uma fase de negociações para colocar em prática o cessar-fogo completo. Alguns dos pontos devem entrar em vigor a partir de agora, enquanto outros ainda serão debatidos com mais atenção.

O QUE JÁ ESTÁ VALENDO

Memorando prevê fim imediato das hostilidades, mas a implementação de outras partes ainda será negociada. O texto, chamado de "Memorando de Entendimento de Islamabad", estabelece o término "imediato e permanente" das operações militares em todas as frentes, inclusive no Líbano.

O documento condiciona a negociação do acordo final ao início de medidas-chave. As conversas para fechar o tratado definitivo devem começar após a implementação de itens como fim das operações militares, retirada do bloqueio naval, garantias de navegação, isenções para exportação de petróleo e liberação de fundos.

A guerra, no entanto, ainda tem reflexos no Líbano. O memorando inclui o encerramento das ofensivas no Líbano, mas Israel se nega a sair do território e realiza ataques desde o dia em que o acordo foi anunciado pelas partes. Governo israelense e americano tentam negociar neste momento.

EUA e Irã vão se reunir amanhã, na Suíça, para as primeiras conversas técnicas. A reunião foi confirmada pelo Ministério das Relações Exteriores suíço como o início das negociações sobre a aplicação do acordo, com participação também de mediadores como Paquistão e Catar.

COMO FICA HORMUZ

Reabertura do Estreito de Hormuz é tratada como medida imediata, com etapas e prazos. O texto prevê início imediato do tráfego de embarcações comerciais, que já começou hoje, e a remoção completa do bloqueio naval em até 30 dias, além de um período de 60 dias em que o Irã deve garantir passagem "segura e gratuita" e iniciar a desminagem em até 30 dias.

Irã e Omã devem dialogar sobre a administração futura do Estreito de Hormuz. O memorando prevê conversas para definir "a futura administração e os serviços marítimos" na via, em conjunto com outros Estados litorâneos do Golfo Pérsico e em conformidade com o direito internacional.

QUAL O PRAZO PARA ACORDO DEFINITIVO

O texto dá 60 dias para que as partes fechem um acordo definitivo. O prazo pode ser prorrogado por consentimento mútuo e deve consolidar os termos do memorando, incluindo um mecanismo executivo para monitorar a implementação.

Enquanto o acordo final não sai, a regra é manter o "status quo". O memorando prevê que o Irã mantenha o atual status de seu programa nuclear e que os EUA não imponham novas sanções nem enviem tropas adicionais para a região.

O memorando reafirma que, ao final de tudo, o Irã não vai adquirir nem desenvolver armas nucleares. O ponto oito do documento registra esse compromisso e indica que a parte nuclear será tratada "imediatamente" nas negociações para o acordo definitivo.

O compromisso central sobre o programa nuclear é diluir o urânio enriquecido sob supervisão internacional. O texto diz que EUA e Irã vão negociar um mecanismo para lidar com o material enriquecido estocado, com "metodologia mínima de diluição no local" e supervisão da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica), além de discutir o tema do enriquecimento na negociação do acordo final.

Sanções e petróleo entram no pacote de implementação desde o início. Prevê-se que o Departamento do Tesouro dos EUA emita isenções para exportação de petróleo bruto iraniano, derivados e serviços associados, e que os dois países negociem a liberação de fundos e ativos iranianos congelados.

O acordo também estabelece a extinção de sanções em um cronograma a ser acertado. O memorando cita sanções unilaterais dos EUA e resoluções do Conselho de Segurança da ONU e do Conselho de Governadores da AIEA como itens a serem revogados no âmbito do acordo final.

QUAIS FORAM AS REPERCUSSÕES

Há críticas internas nos EUA e disputa de narrativa sobre quem "venceu". O acordo recebeu críticas em Washington por envolver concessões econômicas e políticas, enquanto autoridades iranianas e americanas fizeram declarações públicas reivindicando vitória.

Hoje, o líder americano chamou de "idiotas" aqueles que disseram que o acordo não era "duro o bastante com o Irã". "Esses idiotas, que acham que eu não tenho sido duro o suficiente com o Irã, quando a Bolsa de Valores acaba de atingir UM RECORDE HISTÓRICO, e os preços do petróleo estão "despencando", são pessoas invejosas, más ou estúpidas. FAÇA A AMÉRICA GRANDE DE NOVO!!!", escreveu na plataforma Truth Social.

Além disso, disse que os EUA agora são "respeitados, fortes e segurados como nunca antes". "O petróleo está fluindo, o Irã jamais poderá ter uma arma nuclear (o mundo estará seguro!), as bolsas de valores estão em alta, o emprego está em níveis recordes e os preços estão caindo (acessibilidade!)", comemorou a respeito dos resultados pós acordo.

Ontem, por outro lado, Donald Trump alertou que deve voltar com os bombardeios se o acordo não avançar em 60 dias. "Se isso não acontecer, vamos voltar a bombardeá-los. Eu não quero voltar a fazer isso", declarou durante coletiva de imprensa no G7, na França.

Irã, por sua vez, declarou não ter "negociado sua honra" no acordo. "Este texto é o reflexo da voz de uma nação que não negociou sua honra e independência por nenhuma ameaça ou pressão. O que foi registrado hoje é o resultado da resistência nacional, da racionalidade política e da diplomacia responsável", escreveu o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, no X.