Líder interina da Venezuela vai a La Guaira, 'zona de desastre' após terremotos

Por Folhapress

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A líder interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, esteve nesta quinta-feira (25) na cidade costeira de Macuto, no estado de La Guaira, o mais atingido pelos terremotos que devastaram o país e mataram pelo menos 188 pessoas, com 1.520 feridos e pelo menos 200 pessoas presas nos escombros.

Delcy disse que acompanhou o trabalho de socorristas e que "o governo da Venezuela está apoiando as famílias". "Elas têm a nossa solidariedade. Queremos resgatar o máximo de pessoas vivas que for possível", disse a líder interina, no poder desde janeiro, quando o ditador deposto Nicolás Maduro foi capturado pelos Estados Unidos.

"Já pedimos auxílio internacional", disse Delcy em Macuto. "Os primeiros socorristas, vindos da República Dominicana, estão prestes a pousar, e mais países e a comunidade internacional vão chegar aqui. Nossa esperança e nossas orações estão com as vidas dos venezuelanos e venezuelanas", afirmou.

O estado de La Guaira foi declarado oficialmente "zona de desastre" pelas autoridades. Quarteirões inteiros foram devastados na região. Alguns prédios continuam de pé, com rachaduras e estruturas expostas. Outros, no entanto, foram completamente destruídos. Em parte do estado, não havia energia elétrica na manhã desta quinta, e milhares de moradores passaram a noite nas ruas, com lanternas, temendo mais réplicas.

Jornalistas da agência de notícias AFP testemunharam familiares retirando os corpos de um homem e de uma mulher e os colocando na caçamba de uma caminhonete. Também registraram uma farmácia destruída, com portas de vidro quebradas e prateleiras vazias. Há relatos de falta de água e medicamentos, e pelo menos um saque a supermercado foi confirmado na cidade de Catia La Mar.

La Guaira é o principal ponto de entrada do país, já que abriga o Aeroporto Internacional Simón Bolívar, na cidade de Maiquetía, que atende Caracas e recebe o maior número de voos internacionais na Venezuela --as operações foram suspensas nesta quinta. O próprio aeroporto, aliás, foi atingido: vídeos registram pessoas correndo, áreas internas cobertas de poeira e destroços e tetos danificados. O terminal foi fechado devido a "danos graves à sua infraestrutura", segundo Delcy.

"Foi terrível. Tudo, tudo desabou", disse Yilsmaris Blanco, 39, em Catia La Mar, também em La Guaira. "Damos graças a Deus porque estamos vivos, mas há pessoas que estão agora sofrendo com seus familiares soterrados, com seus familiares presos sob os escombros, que não conseguem tirar."

A população de La Guaira é de cerca de 350 mil. Nessa região, conhecida até 2019 como Vargas, ocorreu em 1999 um dos maiores desastres naturais da história da Venezuela, quando chuvas torrenciais provocaram inundações e deslizamentos de terra que causaram a morte de 10 mil a 30 mil pessoas.

À época, não foi possível estabelecer um número preciso de vítimas devido à dimensão da tragédia, segundo autoridades. O processo de reconstrução foi considerado lento, e o governo do então presidente Hugo Chávez teve de aceitar ajuda internacional.

A região foi reconstruída, mas especialistas ainda apontam áreas de risco. Em La Guaira, parte da ocupação urbana ocorreu de forma vertical e adensada, e conjuntos residenciais foram erguidos em áreas de encosta, o que aumenta a vulnerabilidade em casos de terremoto.

A região, junto com Puerto Cabello, a cerca de 200 quilômetros de distância, também concentra a principal atividade portuária do país, dependente de importações. O estado das instalações alfandegárias após os terremotos não havia sido divulgado.

O estado depende também do turismo e, ao longo do tempo, tem explorado sua localização no Caribe para atrair visitantes, sobretudo para edifícios à beira-mar, segundo o jornal venezuelano El Nacional. Vários desses imóveis, no entanto, foram reduzidos a escombros.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse ter conversado por telefone com Delcy e detalhou a ajuda que enviará a Caracas. A FAB (Força Aérea Brasileira) enviará um primeiro avião nesta sexta (26) com uma equipe de 36 bombeiros para prestar suporte às vítimas, além de um segundo envio com equipamentos médicos, cem purificadores de água com painel solar e medicamentos no sábado (27).

"Vão nove toneladas de equipamentos para ajudar na busca e socorro às vítimas. No sábado, enviaremos mais um voo com equipamentos para a montagem de um hospital de campanha, cem purificadores de água com painel solar, medicamentos e material médico para cirurgias", escreveu Lula.

Na véspera, o presidente brasileiro já havia se manifestado sobre a tragédia, ao afirmar que determinou uma avaliação do Ministério das Relações Exteriores sobre a situação do país para adotar medidas de assistência ao incidente. O Ministério das Relações Exteriores do Brasil informou na quinta que dois cidadãos brasileiros morreram no desastre natural.