Após terremotos, venezuelanos se abrigam em praças e se queixam de falta de equipamentos de resgate
CARACAS, VENEZUELA (FOLHAPRESS) - "Foi possível ouvir a terra estalar, havia poeira no ar, muita poeira", conta a revisora Laura Berrocal, moradora de Caracas, sobre o momento dos terremotos que atingiram a Venezuela na noite da quarta-feira (24). Mãe de dois filhos, ela saiu de saiu com as crianças para dormir na praça de Catia, na capital, buscando abrigo junto aos vizinhos.
Ruas e praças viraram espaços de abrigo informais, em paralelo aos locais oficiais designados para assistência, como alguns centros culturais do país.
Apesar de ser uma das épocas mais quentes do ano na Venezuela, com temperaturas de até 40°C durante o dia, a última noite foi fria e com garoa. Laura, assim como diversos vizinhos, passou a noite sem conseguir dormir no local improvisado.
As queixas sobre falta de assistência se espalharam após o desastre. Para a bióloga e matemática Teresina Mejía, moradora do estado de Miranda, a cerca de uma hora e meia de Caracas, não houve resposta correta dos órgãos de segurança. Por precaução, ela e sua família deixaram a casa para se abrigar em uma quadra esportiva na última noite.
Mejía disse não ter visto a atuação da polícia nem da Defesa Civil no local para orientar a população ou ajudar a manter a calma. "O mais importante foi a reação das pessoas [de forma independente]", diz.
Tomás Bonilla, ex-policial, técnico agrônomo e educador, diz ter recebido um alerta de terremoto em seu celular apenas cinco segundos antes do início do tremor. "Os gritos das crianças, das mulheres e dos homens deixaram claro que ninguém estava preparado para um terremoto", conta.
Ele diz que abraçou seu filho e rezou enquanto o apartamento, no 18º andar, se inundava. A estrutura, porém, não ruiu. "Graças a Deus, nosso prédio é antissísmico", afirmou. Ainda assim, uma hora depois, decidiu deixar o edifício com a esposa e o filho para passar a noite na casa da cunhada.
Na região costeira de La Guaira, a mais afetada pelos terremotos, moradores escavaram os escombros com as próprias mãos, tentando resgatar seus vizinhos. "Estamos tentando ajudar no que podemos, mas faltam equipamentos", disse Carlos Borges, frustrado com a escassez de maquinário, como retroescavadeiras, para remover as pilhas de placas de concreto que antes formavam edifícios de apartamentos.
Sua equipe retirou três pessoas de um prédio, enquanto familiares angustiados ?incluindo a mãe solteira de um adolescente desaparecido? aguardavam no local na manhã desta quinta.
Modelos do Serviço Geológico dos EUA indicam que o número de mortos pode ultrapassar 10 mil após dois terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5 causarem destruição na capital, Caracas, e arredores. O regime da líder interina Delcy Rodríguez confirmou ao menos 235 mortos e mais de 1.500 feridos.
Moradores de La Guaira ?destino popular para banhistas e a cidade mais atingida do país? e de Morón, perto do epicentro dos tremores, tentavam agir por conta própria em meio à escassez de ajuda oficial.
"Não é possível chamar os militares? Que todos venham, venham ajudar. Coloquem-nos em veículos blindados e venham ajudar as pessoas. Encontrem tratores onde puderem", disse Argenis Martínez, morador do bairro Los Corales, em La Guaira, que procurava um parente entre os escombros.
O regime, que informou que 250 edifícios foram danificados ou destruídos ?principalmente em La Guaira?, comunicou que ajuda está a caminho, inclusive proveniente de países que se prontificaram, e pediu ao setor privado que ceda equipamentos, como retroescavadeiras, para auxiliar nos esforços de resgate.
Em algumas áreas de La Guaira, as pessoas buscavam comida e água, e uma equipe da agência Reuters presenciou saques em pelo menos duas lojas. As Forças Armadas venezuelanas estão montando hospitais de campanha na região ?conforme anunciado em comunicado oficial? e terão capacidade para realizar cirurgias de emergência. Ainda nesta quinta, uma equipe da Reuters na cidade viu um comboio militar perto do estádio local realizando operações de ajuda humanitária.