Parque na capital da Venezuela vira refúgio para mais de mil desabrigados pelos terremotos
CARACAS, VENEZUELA (FOLHAPRESS) - O Parque Generalíssimo Francisco de Miranda, conhecido como Parque del Este, costuma ser um espaço de lazer e cultura para os moradores de Caracas. Porém, desde a noite da quarta-feira (24), após os dois terremotos que atingiram a Venezuela, passou a funcionar como refúgio para mais de mil desabrigados de diversas regiões da cidade.
Segundo os guarda-parques responsáveis pela inscrição dos necessitados, até o início da tarde desta sexta-feira (26), 980 adultos e 200 crianças haviam chegado ao local. Em todas as áreas, é possível ver pessoas reunidas em grupos familiares sobre a grama, em colchões, bancos ou dentro de barracas que fazem parte das doações recebidas.
Grupos de voluntários chegam ao local em diferentes horários, assim como organizações religiosas que levam mensagens de esperança. Os desabrigados recebem refeições, frutas, água, roupas, fraldas para crianças e idosos.
Há também atendimento de médicos voluntários. Cães e gatos de estimação também ganham atenção de estudantes de veterinária.
"Essas pessoas precisam de muita ajuda. Além das coisas que trazemos, elas precisam de uma mensagem de esperança, e é por isso que estamos aqui", diz Jon Pacheco, que atua como voluntário, assim como um grupo de amigos.
Silvys Díaz conta que chegou ao Parque del Este com outros seis membros da família na quinta-feira (25). Ela mora no bairro San José de Petare, considerado uma das maiores comunidades populares da América Latina.
"O morro atrás da minha casa desmoronou, e a residência ficou comprometida. A casa da minha sogra também está em situação delicada, porque fica em um terreno muito elevado, e a terra se deslocou", relata.
Ela e a família receberam água e comida, além de roupas para o bebê. Díaz afirma sentir-se segura no local. "As pessoas que cuidam do parque são muito atenciosas", diz.
Pedro Bravo chegou ao abrigo acompanhado da esposa e do filho de 11 anos. Ele morava de aluguel em uma pensão no centro de Caracas. "Meu quarto ficou em condições inadequadas. Com esse terremoto, uma das paredes antigas caiu sobre o telhado e destruiu o meu quarto", diz.
Sentado em um banco e vigiando um colchão colocado sobre o pavimento, Bravo conta que ele e os vizinhos que o acompanham no local foram profundamente afetados pela tragédia. "Estou bastante abalado e esperando por ajuda, porque nós, que ficamos sem moradia, precisamos de um lugar seguro para nos abrigar. Estamos ao ar livre", resume.
Ele diz acreditar que a ajuda deve vir do Estado, embora demonstre dúvidas sobre a gestão. "Entendo que ainda há pessoas soterradas que não conseguiram ser resgatadas. O número [da tragédia] pode ser maior."
Para uma jornalista que está abrigada no parque e não quis se identificar, a crise após os terremotos veio com outro problema, o da desinformação. Sentada em um colchão, ela opina que o regime não parece ter um plano de ação diante da emergência.
Ela precisou buscar abrigo junto com duas irmãs, uma delas com deficiência. Elas moram em Los Palos Grandes, no município de Chacao (região metropolitana de Caracas), bairro de classe média onde alguns edifícios desabaram. O prédio onde vivem precisa passar por uma avaliação dos danos estruturais antes que possam retornar.
Já Armando Aponte e sua família moram a poucas quadras do Parque del Este. No momento da entrevista, ele estava acompanhado de um dos filhos, de cerca de 20 anos. Eles chegaram ao abrigo na noite dos terremotos.
"Até que os inspetores façam a vistoria e verifiquem os danos no edifício, permaneceremos aqui", afirma.
Ele elogia o apoio recebido no parque e destaca que também houve segurança policial. "O tratamento tem sido compatível com a situação que estamos vivendo", diz.