Refeitório em Caracas mantém rotina de solidariedade após terremotos na Venezuela

Por SYLVIA COLOMBO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - No dia seguinte às dramáticas imagens dos edifícios desabados, do aeroporto e de outros lugares simbólicos reduzidos a escombros que circularam pelos meios de comunicação, todos pareciam mais nervosos no refeitório da igreja Nossa Senhora del Carmen, em Petare, um dos bairros mais populosos e vulneráveis de Caracas.

Ainda assim, ninguém causou confusão nem tentou levar mais comida do que lhe cabia. Esse é o relato da chef Maria Alexandra Ocque, referência em gastronomia amazônica que, em dias de emergência como esses, sai às ruas para ajudar a população. Ela contou as primeiras horas após o terremoto à Folha de S.Paulo.

A igreja e o refeitório não sofreram danos importantes. Todas as manhãs, pelo menos 50 meninos e meninas passam por ali para tomar o café antes de seguir para a escola. Por sorte e pelo empenho dos envolvidos, não faltou café nem arepa (pequenos pães feitos de farinha de milho pré-cozida, alimento básico da culinária venezuelana e muito presente também na colombiana).

Quando as crianças saem, o espaço é ocupado por um segundo grupo: o de adultos, muitos deles mulheres voluntárias que preparam e levam arepas para bairros pobres da região. Em seguida, outro grupo organiza as marmitas destinadas a pessoas com dificuldades de locomoção e que não têm familiares ou vizinhos que possam buscá-las.

Em meio ao emaranhado de ruas e morros, o refeitório sobrevive em um pequeno centro histórico de arquitetura colonial, preservado por associações de moradores, com sua praça principal e a Igreja Dulce Nombre de Jesús. É nessa paróquia que trabalha a chef Ocque, a pesquisadora dos sabores amazônicos que assumiu há pouco tempo as panelas do refeitório.

Ocque apresentou o Petare a esta repórter no meio da convulsão social de 2017, quando houve dezenas de mortos. "Aqui não tem essa de medo de sair da rua se é para fazer pátria, fazer o país. Esses meninos que ajudo agora vão me ajudar na minha velhice", conta. "Então tenho de dar o meu melhor."

Sua irmã, Carolina, é um pouco mais política. "Nada disso está acontecendo por acaso. O que os países de fora decidirem sobre a Venezuela a partir de agora precisa levar tudo isso em conta. Temos um histórico de apagões, de falta de remédios, de serviços que só funcionam de vez em quando. Para que exista um plano de reconstrução, precisamos de autoridade e de políticas públicas."

"Temos muita solidariedade quando o tema é político, mas nem tanto quando precisamos de luz, de energia, de máscaras e vacinas durante a pandemia. Isso também é política, é a razão de porque é preciso fazer política", diz Carolina.

Enquanto conversava com a Folha de S.Paulo por videoconferência, a chef Ocque mexia lentamente uma panela de sancocho. A sopa espessa, preparada com carnes, tubérculos, legumes e temperos cozidos lentamente, é um dos pratos mais tradicionais da América Latina e do Caribe. É uma refeição forte, muito cheia de proteínas e tradição. Quase uma resposta nacionalista.

"Vai saber o que cada um viveu na noite do terremoto ou há quantas horas está sem comer. O sancocho não tem erro. Alimenta, dá forças, acalma. É disso que estamos precisando", diz.