Tarcísio inicia projeto de reeleição em SP em meio a disputas em sua base

Por BRUNO RIBEIRO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A perspectiva de que a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência tire Tarcísio de Freitas (Republicanos) da disputa nacional levou PP, PL e PSD a disputarem espaço no Governo de São Paulo no período que antecede o início da campanha pela reeleição.

A movimentação dos partidos teve início no começo de dezembro, quando Flávio se lançou pré-candidato após visitar o pai, Jair Bolsonaro (PL), em Brasília. O ex-presidente está inelegível e cumpre pena após condenação pelo STF (Supremo Tribunal Federal) por tentativa de golpe de Estado.

Nos dias seguintes ao anúncio, a articulação dos partidos ficou restrita a conversas de bastidores. Ao longo do mês, conforme o projeto de Flávio ganhou adesão de aliados, as movimentações ganharam intensidade. Após o Natal, quando Tarcísio saiu de férias com a família para os Estados Unidos, o debate veio a público, especialmente por meio do PP.

"Com a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República, o partido também passou a considerar estratégico ter, no Palácio dos Bandeirantes, um governador mais alinhado ao projeto nacional da sigla. A avaliação interna é de que essa sintonia facilitaria a montagem e a sustentação da chapa de candidatos a deputado federal e estadual em São Paulo, um dos principais colégios eleitorais do país", disse a legenda, em nota distribuída no dia 27.

O presidente nacional do PP, Ciro Nogueira, que foi um dos principais entusiastas da candidatura nacional do governador, disse que ainda prefere estar com Tarcísio no estado em vez de lançar um nome próprio. Segundo interlocutores, o partido passou a pressionar por mais espaço após perder a Secretaria da Segurança Pública no fim de novembro, quando Guilherme Derrite (PP) deixou o cargo para se lançar ao Senado.

No caso do PL, sigla de Bolsonaro, o presidente da sigla, Valdemar Costa Neto, pressionou Tarcísio durante todo o mandato para que ele se filiasse à legenda, por meio de declarações públicas sobre uma eventual mudança partidária que o governador nunca confirmou.

O partido tem a maior bancada da Alesp (Assembleia Legislativa), com 20 deputados. O presidente da Casa, André do Prado (PL), disse em dezembro que "é natural a legenda buscar no governo um espaço proporcional", que viria pela indicação de um nome para vice-governador na chapa da reeleição.

Prado era cotado pelo partido para ser lançado como sucessor de Tarcísio caso o governador partisse para uma disputa presidencial. A vaga de vice, contudo, pertence ao PSD, partido presidido pelo secretário de Governo de São Paulo, Gilberto Kassab, considerado um habilidoso articulador político.

Segundo relatos de auxiliares, Tarcísio já atribuiu a ele a construção da campanha eleitoral de 2022, o que garantiu a Kassab a indicação de técnicos ligados a seu grupo político para pastas-chave do governo, como Saúde, Educação e Habitação. Também é do partido o cargo de vice, ocupado por Felício Ramuth, que o governador prefere manter, ainda segundo auxiliares.

De olho no espaço ocupado por Kassab, aliados do governador têm colocado em dúvida o papel do PSD nas eleições de outubro. Em São Paulo, o dirigente tem histórico de atritos com bolsonaristas, diante da aliança que o partido mantém, na esfera federal, com o governo Lula, e aliados questionam se a sigla permaneceria no governo petista em um eventual segundo turno entre o PT e Flávio Bolsonaro.

A reportagem procurou o PSD para saber se Kassab gostaria de comentar, mas não teve resposta.

Tarcísio sempre negou que seria candidato à Presidência, embora tenha participado no segundo semestre do ano passado de eventos com tom eleitoral que o projetavam para a disputa contra Lula. Na disputa pelo Governo de São Paulo, aliados avaliam que ele largaria como favorito em um confronto com um nome do campo petista.

Conforme a Folha de S.Paulo mostrou, bolsonaristas próximos a Tarcísio têm se queixado de sua apatia diante da candidatura de Flávio. Embora já tenha dito que apoiará o senador, a falta de empenho alimenta, entre os dirigentes partidários, expectativa de que Tarcísio ainda busque uma maneira de se viabilizar à Presidência.

Desde que se envolveu nas eleições municipais de 2024, quando fez campanha, na capital, para Ricardo Nunes (MDB), o governador vinha dizendo aos aliados que sua preocupação era eleger nomes da centro-direita nas prefeituras paulistas para evitar que partidos da esquerda ganhassem espaço no estado, em uma estratégia de exploração da polarização entre esquerda e direita.

No período de férias, suas redes sociais se mantiveram ativas e publicaram vídeos dele atacando o PT. "A fórmula é simples! Feliz 2026 = Fora PT", diz um dos textos, colocado no ar no dia 2.