Esquerda ironiza transferência de Bolsonaro e explora simbolismo da Papuda
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Parlamentares e líderes da esquerda usaram as redes sociais nesta quinta-feira (15) para explorar o peso simbólico da transferência do ex-presidente Jair Bolsonaro para o 19º Batalhão da Polícia Militar, área conhecida como Papudinha, junto ao Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília.
A Papuda já abrigou autoridades, líderes de facções criminosas e políticos envolvidos nos escândalos do mensalão e da Lava Jato.
O local preparado para Bolsonaro na Papudinha tem 64,83 metros quadrados, com quarto, cozinha, banheiro e área externa. Ele teve visitas ampliadas e poderá receber assistência médica permanente.
O deputado federal Orlando Silva (PC do B-SP) escreveu em letras maiúsculas: "URGENTE! BOLSONARO NA PAPUDA AGORA É FATO!". Em seguida, afirmou que, com a decisão do STF, "já pode dizer BOLSONARO NA PAPUDA sem medo de errar". Ele classificou a cela como "um luxo para o que ele sempre defendeu aos presos" e disse que se trata de "um privilégio que outros presos, inclusive do 8 de Janeiro, não dispõem".
O deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP) também adotou o mote com o nome do complexo penitenciário e transcreveu o trecho de uma notícia que descrevia a possibilidade de assistência integral de médicos particulares sem necessidade de comunicação prévia cedida a Bolsonaro.
Também deputado federal, Paulo Pimenta (PT-RS) igualmente recorreu à expressão "Bolsonaro na Papuda" ao comentar a decisão e afirmou que a medida simboliza o enfrentamento à impunidade.
"Quem atentou contra a democracia merece ser tratado com todo o rigor da lei", declarou.
Líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (PT-RJ) disse que a decisão confirma uma solução defendida por seu grupo político. Ele afirmou que o despacho "desmonta a campanha sistemática e mentirosa de 'tortura'" e declarou que não há violação de direitos, mas "cumprimento da lei, com respeito à dignidade humana".
Ministro do governo Lula, Guilherme Boulos (PSOL) publicou a frase "aqui se faz, aqui se paga" e divulgou um vídeo gravado em 2017, no qual Bolsonaro, então deputado federal, ironiza adversários políticos ao comentar investigações da Operação Lava Jato e afirma que "a Papuda espera" quem comete crimes.
A declaração feita naquele contexto era uma provocação a parlamentares da esquerda e voltou a circular nas redes de forma irônica após a decisão do STF. O PSOL replicou o mesmo vídeo em suas redes sociais.
A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) criticou as queixas da família do ex-presidente sobre a carceragem da PF e afirmou que a Papudinha ainda seria "muito" para Bolsonaro.
"Por mim, Bolsonaro deveria viver as suas famosas palavras: 'Bandido tem que apodrecer na cadeia'", escreveu.
Ao decidir transferir Bolsonaro da Superintendência da Polícia Federal para a Papudinha, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes afirmou que o cumprimento da pena "não é uma 'estadia hoteleira' ou uma 'colônia de férias'".
Segundo o despacho, o espaço permite banho de sol e exercícios físicos a qualquer horário, com possibilidade de instalação de equipamentos como esteira e bicicleta. A decisão também destaca a manutenção de itens já existentes na prisão anterior, como cama de casal, TV e água quente.
A Papuda já recebeu políticos e personagens centrais de grandes escândalos criminais do país. Passaram pelo complexo o ex-ministro Geddel Vieira Lima, o ex-deputado Mário Junqueira e o ex-senador e empresário Luiz Estevão, que foram alvo de denúncias por regalias na prisão.
Também estiveram no local o operador do mensalão Marcos Valério, o ex-deputado Natan Donadon, primeiro parlamentar em exercício preso pelo STF após a redemocratização, e Valdemar Costa Neto, presidente do partido de Bolsonaro condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
O presídio abrigou ainda os petistas José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares, detidos após o julgamento do mensalão.
Entre outros presos conhecidos, passaram pela Papuda Carlinhos Cachoeira, Cesare Battisti, o doleiro Lúcio Funaro e o chefe do PCC (Primeiro Comando da Capital) Marcola, que permaneceu poucos dias no local em 2001.
