Pauta moral e crítica à esquerda reúnem trans de direita e pastor em ato de Nikolas
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A pauta moral e o que chamam de preconceito ou intransigência da esquerda uniram Suellen Rayanne Linhares Ribeiro, conhecida como trans de direita, e o pastor Fábio Brito Santana em uma programação diferente no último fim de semana.
Eles interromperam a rotina no interior de São Paulo e em Salvador, respectivamente, para participar da caminhada até Brasília proposta por Nikolas Ferreira (PL-MG) -evento marcado por mutirão de selfies, atraindo políticos em busca de visibilidade, e que alavancou o deputado federal como cabo eleitoral de Flávio Bolsonaro (PL), sob críticas de aliados de Lula (PT).
No domingo (25), o parlamentar reuniu 18 mil pessoas na praça do Cruzeiro, na capital federal, segundo estimativa do Monitor do Debate Político do Cebrap e da ONG More in Common, feita com base em imagens aéreas. A concentração foi o resultado da caminhada que começou no dia 19 em Paracatu, no interior de Minas Gerais, e terminou com feridos em Brasília depois que um raio atingiu parte dos manifestantes.
O objetivo do ato, afirmou o parlamentar, foi pressionar pela libertação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e outros condenados por tentativa de golpe de Estado.
Suellen e Fábio Brito não foram juntos ao encontro, mas têm coisas em comum. Ambos passaram a se identificar com a direita por volta de 2015, ano marcado pelo antipetismo e por intensos protestos contra a então presidente Dilma Rousseff (PT).
No caso de Suellen, a marcha à direita começou, segundo diz, quando percebeu não se identificar com imposições vindas de homens gays progressistas, época em que ela se identificava como homossexual. "LGBTs de esquerda me ameaçam, me xingam, me ofendem pelo fato de eu ser de direita, citando em mim uma contradição. A esquerda também é contraditória. Falam de mim, mas apoiam pessoas e locais onde é crime ser LGBT."
Hoje com 26 anos, Suellen diz não concordar com a esquerda, sobretudo, na pauta de costumes: não acha, por exemplo, que mulheres trans como ela devam usar banheiros femininos e nega a existência de crianças trans. Atuando como influenciadora nas redes sociais, com foco nessas pautas, diz que Nikolas é exemplo a ser seguido na luta por "justiça, liberdade e democracia".
Ela afirma ter pegado um ônibus em Rio Claro (interior de SP), cidade onde mora, para encontrar o grupo liderado por Nikolas em Luziânia (GO), a cerca de 60 km de Brasília. Conta ter andado metade do caminho com os manifestantes, se hospedado em um hotel e, no dia seguinte, continuado o trajeto.
Quando o raio atingiu parte dos manifestantes na praça do Cruzeiro, porém, já estava na rodoviária de Brasília para voltar para casa. Segundo Suellen, a viagem valeu a pena pela luta "a favor da democracia e pela liberdade dos presos do 8 de Janeiro".
Ela diz que, antes da prisão de Bolsonaro, falava pelo telefone com o ex-presidente, que a conhecia pela atuação como trans de direita nas redes. Em 2024, Suellen tentou ser vereadora de Rio Claro pelo União Brasil, mas obteve apenas 83 votos. Atualmente, diz ser filiada ao PL.
"Nikolas Ferreira nunca me tratou no masculino nem o Bolsonaro. Eles sempre usaram o feminino, meu nome social."
O deputado federal já respondeu mais de uma vez na Justiça por acusação de transfobia. Em um dos casos mais recentes, foi condenado a pagar R$ 40 mil por chamar uma mulher trans de homem.
Tem também entreveros com a deputada Duda Salabert (PDT-MG) sobre o mesmo tema e, no currículo, episódio em que subiu na tribuna da Câmara com uma peruca, ironizando mulheres transexuais.
Para Suellen, Nikolas não é transfóbico. Ela afirma que parte dos episódios com o político aconteceu porque parlamentares de esquerda o "provocam bastante". Outras ocorrências, como a da peruca, seriam ato em "defesa do espaço das mulheres".
Enquanto a influenciadora diz não ter religião, o pastor Fábio Brito Santana, 42, viu no que entende serem pautas de esquerda uma contraposição a seus ideais cristãos. Cita a luta pela legalização das drogas e do aborto.
Santana diz que saiu de Salvador de carro na madrugada de sexta-feira (23) e encontrou Nikolas e outros manifestantes na região de Valparaíso (GO), onde se juntou à manifestação. Depois, foi para um hotel e, no domingo, encontrou os manifestantes já no parque do Cruzeiro.
Ele afirma que passou a se entender de direita em 2015, quando terminava uma graduação em uma universidade federal. "Existia um certo preconceito comigo por eu ser cristão", diz ele, que fala em "imposições da esquerda" na tentativa de defender sua maneira de ver o mundo.
É com esse argumento que Santana defende Nikolas das acusações de transfobia. "Nikolas é cristão, filho de pastor. Tem uma visão de mundo pautada na Bíblia", diz. "Se alguém se considera uma mulher trans, é direito da pessoa, mas, biblicamente, só existe homem e mulher."
