PF deve investigar possível elo entre servidor alvo de operação com ex-integrante da Receita de Bolsonaro
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A Polícia Federal deve apurar a possível conexão entre um dos servidores na mira da investigação sobre o acesso a dados de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e um ex-integrante da Receita Federal na gestão de Jair Bolsonaro (PL).
Segundo três pessoas a par das investigações, o auditor fiscal Ricardo Mansano de Moraes, alvo da operação da última terça (17) por suspeita de acessar informações ligadas a integrantes do Supremo, tem relação com Ricardo Pereira Feitosa, que foi chefe da inteligência da Receita Federal no início do governo Bolsonaro.
Feitosa foi exonerado do cargo público de auditor fiscal em 2023, após a Folha revelar que ele acessou e copiou de forma imotivada dados fiscais sigilosos de pessoas consideradas desafetos pelo então presidente da República. Antes de assumir o cargo de chefe nacional da inteligência da Receita, em 2019, Feitosa trabalhava no escritório do órgão em Cuiabá.
Mansano foi alvo da PF nesta semana por suspeita de acessar os dados de uma ex-enteada do ministro Gilmar Mendes, filha da advogada Guiomar Feitosa. A operação foi deflagrada por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do STF.
No depoimento à PF, segundo relato ouvido pela Folha, o servidor argumentou que acessou os dados de Maria Carolina Feitosa porque procurava, na verdade, dados de uma pessoa ligada ao próprio Ricardo Feitosa, o ex-chefe de Inteligência da Receita. Feitosa e Mansano trabalharam juntos em Cuiabá.
Investigadores desconfiam, porém, dessa versão apresentada pelo auditor fiscal e avaliam ser necessário esclarecer se, na verdade, Mansano teve algum tipo de atuação conjunta com Feitosa. Para isso, a investigação deve incluir a quebra de sigilos telefônico e fiscal do servidor, para averiguar também se ele recebeu dinheiro após acessar os dados de Guiomar.
Nesta quinta (19), Mansano foi retirado de um cargo na chefia de Gestão do Crédito Tributário e do Direito Creditório, em Presidente Prudente (SP), onde atuava na secretaria da Receita. Ele ingressou no serviço público em 1995 por meio de concurso.
O advogado de Feitosa diz que seu cliente não tem relação com os fatos investigados no âmbito do inquérito no STF e que ele não pediu nem autorizou o auditor a acessar dados fiscais seus ou de seus parentes em nenhum momento.
A defesa de Mansano afirma que ele é um "profissional de reputação ilibada que, ao longo de anos de atuação junto à Receita Federal do Brasil, jamais respondeu a qualquer falta funcional". Questionada sobre a relação de seu cliente com Feitosa, não se manifestou e disse que um novo posicionamento será divulgado quando obtiver acesso integral às acusações e aos respectivos elementos de investigação.
A PF também apura se há ligação do presidente da Unafisco (Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil), Kleber Cabral, com Feitosa. O representante de uma parcela dos auditores da Receita prestou depoimento nesta sexta-feira (20). Publicamente, afirmou ver exageros na decisão de Alexandre de Moraes e defendeu Mansano.
O presidente da entidade tem criticado publicamente as decisões do STF sobre a suspeita de vazamento de dados dos ministros da corte. Em entrevistas, Cabral afirmou que um dos auditores supostamente envolvidos foi alvo de "falso positivo" por parte do tribunal. Ele disse ainda que o caso estava sendo tratado de forma desproporcional.
A PF cumpriu na última terça quatro mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia, em investigação que apura possíveis vazamentos de dados da Receita envolvendo ministros do STF e seus parentes.
Além de Mansano, os alvos da operação foram Luiz Antônio Martins Nunes (servidor do Serpro, empresa estatal de processamento de dados, que estava cedido ao Fisco), Luciano Pery Santos Nascimento e Ruth Machado dos Santos.
