Briga no clã Bolsonaro dificulta acordos e plano de projetar Flávio como moderado, avalia centrão

Por AUGUSTO TENÓRIO E CAROLINA LINHARES

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Lideranças do centrão avaliam que as brigas públicas de lideranças do PL, principalmente envolvendo a família Bolsonaro, dificultam a costura de alianças pelo pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e arranham a imagem de moderação que ele tenta projetar.

Nos últimos dias, Flávio viu seus irmãos atacarem publicamente figuras centrais no partido. O ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL) criticou o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), enquanto o ex-vereador Carlos Bolsonaro (PL) discutiu com o presidente da sigla, Valdemar Costa Neto.

Essas discussões aprofundaram um clima já difícil na sigla. Desde que foi escolhido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) como candidato ao Planalto, em dezembro, Flávio enfrenta um distanciamento de Michelle. A ex-primeira-dama foi mantida às escuras durante o processo de sucessão, mas tem demonstrado vontade de participar das decisões da sigla.

Segundo uma liderança do centrão, Flávio errou ao empoderar Eduardo quando o anunciou ministro de Relações Exteriores em caso de vitória. Segundo esse aliado, o senador tem se consolidado nas pesquisas justamente pela limitação desse tipo de discurso, numa tentativa de se mostrar como uma versão bolsonarista mais moderada.

Três presidentes de partidos de centro, ouvidos sob reserva pela Folha, avaliam que as brigas da família Bolsonaro atrapalham as negociações e arranham a imagem de Flávio como um nome menos radical. Um representante do centrão coloca as disputas internas como um entrave para conversas, diante da incerteza sobre qual ala do PL vencerá a queda de braço por espaços e candidaturas.

Além do mais, há uma cobrança por mais presença de Flávio nas negociações no Brasil. A avaliação é que a direita ficou solta demais enquanto o senador fazia viagens internacionais. Ele fez um tour pelo Oriente Médio e Europa e foi aos Estados Unidos.

Interlocutores do senador afirmam que ele está ciente dos problemas e retorna dos Estados Unidos nesta semana com o objetivo de organizar o partido para impor hierarquia.

Um dos seus aliados avalia que houve um atravessamento de informações, principalmente por lideranças da direita que visitaram Bolsonaro na prisão e deram declarações sobre formação de palanques. O ex-presidente está preso na unidade conhecida como Papudinha, em Brasília, e recebe visitas esporádicas.

Segundo uma pessoa próxima a Flávio, o senador aproveitará os próximos dias para tentar colocar ordem no partido. A ideia é deixar claro que Bolsonaro o escolheu como novo capitão e que a direção será dada por ele. Ou seja, o senador tentará centralizar as informações e decisões.

Ao mesmo tempo, ele atua para mediar brigas internas. Conteve as farpas do irmão Eduardo contra o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que foi cotado para disputar o Planalto. Agora, segundo interlocutores, também atuou para dirimir a contenda do ex-deputado com Nikolas Ferreira.

Flávio e Nikolas estarão juntos na manifestação bolsonarista convocada para o próximo domingo (1º), num gesto que visa sinalizar união após Eduardo acusar o deputado de não se dedicar à pré-campanha do senador. Aliados também acreditam que uma resolução da disputa entre Carlos e Valdemar será possível em breve.

Sobre Michelle, aliados afirmam que Flávio levará a situação com mais cautela. O grupo do senador considera que a ex-primeira-dama está frustrada com o processo que definiu o filho mais velho de Bolsonaro como candidato, mas avaliam que ela embarcará na campanha no momento certo. A ordem é "dar tempo ao tempo" e evitar novas brigas com a família.

Uma liderança do PL reconhece que o bate-boca impacta negativamente a campanha, mas minimizou a situação. Para uma ala do partido, os rachas familiares são um filme antigo no clã Bolsonaro, alimentados principalmente por Eduardo, e Flávio reconhece que precisa de Michelle e Nikolas para se eleger.

AS CRÍTICAS

Em entrevista ao SBT News na sexta-feira (20), Eduardo Bolsonaro afirmou que o apoio de Michelle e Nikolas a Flávio está "aquém do desejável". Na ocasião, ele afirmou que Tarcísio, com quem fez as pazes recentemente, era exceção.

"Nikolas e Michelle estão jogando o mesmo jogo. Você vê que um, lado a lado, compartilha o outro e apoia o outro na rede social, só estão com uma amnésia aí. Eu não vi nenhum apoio da Michelle, nenhum post a favor do Flávio. Ela compartilha o Nikolas a toda hora", disse Eduardo.

Nikolas rebateu: "Nós temos o pai dele preso, sofrendo dificuldades de saúde, você tem as pessoas do dia 8 [de janeiro] presas e precisando ajudar a derrubar o veto à [proposta da] dosimetria, você tem o STF envolvido em diversos escândalos, você tem o Lula fazendo literalmente de tudo para poder destruir esse país e a prioridade é nos atacar. Então, isso diz muito mais sobre ele do que a mim".

Enquanto isso, Carlos e Valdemar também discutiram publicamente. O ex-vereador, que concorrerá ao Senado por Santa Catarina, afirmou que Bolsonaro estaria preparando uma lista de pré-candidatos do PL ao Senado e governos estaduais. O acordo na sigla, porém, era que o ex-presidente teria a palavra final somente sobre os candidatos a senador.

"Debatemos tudo, mas o Senado é o Bolsonaro que indica. Sempre foi. Nós indicamos os governadores. Todos nós damos palpites em tudo. É normal. Sempre ouvimos nossos parceiros", respondeu Valdemar ao Poder360.

Carlos compartilhou a declaração do presidente do PL e rebateu levantando a teoria de que o pai estaria sendo limado do processo decisório: "Me parece que as coisas estão meio desencontradas sem querer querendo! As peças todas parecem se encaixar! Deixar o preso político isolado e fazendo isso que estamos vendo e de forma acentuada está cada dia mais?. Estranho!".