Para 71%, homenagem de escola de samba a Lula em ano eleitoral é inadequada, afirma Datafolha
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A homenagem da escola de samba Acadêmicos de Niterói ao presidente Lula (PT) em um ano eleitoral é considerada inadequada por 71% dos eleitores, segundo pesquisa Datafolha. Para 25% dos entrevistados, ela é adequada, enquanto 4% não souberam responder.
É o que aponta pesquisa do instituto realizada presencialmente com 2.004 pessoas de 16 anos ou mais, de 3 a 5 de março, em 137 municípios. A margem de erro geral é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos, e o nível de confiança, de 95%. Ela está registrada no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) sob o número BR-03715/2026.
Entre os eleitores de Jair Bolsonaro (PL) na corrida presidencial de 2022, a opinião de que a homenagem é imprópria para o período que antecede as eleições foi majoritária. Ao todo, 94% consideraram a apresentação inadequada, contra 4% que a aprovaram. O restante (2%) não soube responder.
A homenagem também foi considerada inadequada por 49% dos entrevistados que declararam ter votado em Lula nas últimas eleições gerais -outros 46% de eleitores do petista acharam adequado e 4% não responderam.
As alegorias do desfile abordaram a trajetória de Lula e usaram elementos que aludiam à direita e à oposição. Bolsonaro, por exemplo, foi representado encarcerado e fantasiado de palhaço Bozo.
Também houve a ala da "família em conserva", que trazia imagens de famílias estampadas em latas de comida. A fantasia foi considerada uma crítica aos defensores de núcleos familiares supostamente tradicionais. O tema é pauta de grupos conservadores.
O instituto também questionou os entrevistados sobre a alegoria e formulou três respostas possíveis.
O primeiro grupo, que se disse pessoalmente ofendido com a fantasia, representou 17% do total de entrevistados (entre eleitores de Lula em 2022, 5%, e de Bolsonaro, 34%).
Aqueles que não se sentiram ofendidos a nível pessoal, mas acharam que o conteúdo poderia ofender outras pessoas, somaram 26% dos entrevistados totais (25% entre eleitores do petista, e 29% entre os do ex-presidente).
Outros 9% da amostra geral não consideraram a "família em conserva" ofensiva para si ou para outras pessoas (entre aqueles que votaram no atual chefe do Executivo, o índice foi de 16% ; dos eleitores de Bolsonaro, 3%).
Nos recortes que levam em consideração a declaração de voto no segundo turno das eleições de 2022, a margem de erro máxima considerada é de 4 pontos percentuais.
A pesquisa também segmentou os eleitores por religião. A homenagem foi considerada inadequada para 83% dos evangélicos e adequada para 13%. A inadequação para os católicos também foi majoritária, porém inferior, com 67%, enquanto 28% consideraram adequado. As parcelas desses grupos que não souberam responder foram, respectivamente, de 3% e 4%.
A margem de erro das segmentações que se baseiam na religião dos entrevistados pelo Datafolha é de 3 pontos percentuais para os católicos e de 4 pontos para os evangélicos.
A escolha do enredo foi alvo de protestos da oposição e chegou a ser questionada no TSE mesmo antes do desfile. O Partido Novo e a Missão apresentaram representações por propaganda eleitoral antecipada, que tiveram as liminares negadas por unanimidade.
A relatora, ministra Estela Aranha, entendeu que medidas tomadas antes do desfile poderiam configurar "censura prévia, indireta e restrição desproporcional ao debate democrático". Segundo ela, a legislação exige pedido explícito de voto para configuração do abuso eleitoral, o que não pode ser configurado antes da apresentação em si. Aranha mencionou, entretanto, um "possível ilícito futuro".
A presidente do tribunal, ministra Cármen Lúcia, também advertiu: "Não parece ser um cenário de areias claras de uma praia, parece mais areia movediça. Quem entra, entra sabendo que pode afundar".
Lula, que é pré-candidato à reeleição, acompanhou o desfile da Marquês de Sapucaí, no camarote da Prefeitura do Rio de Janeiro.
Após o desfile, o PL acionou o TSE com um pedido de produção antecipada de provas para investigar o desfile, buscando reunir elementos para uma futura ação de abuso de poder político e econômico.
A agremiação se apresentou no domingo, 15 de fevereiro, primeiro dia de desfiles do Grupo Especial. Foi a estreia da escola na categoria, que é considerada a primeira divisão do Carnaval carioca. Somando 264,6 pontos nos nove quesitos avaliados, a Acadêmicos de Niterói foi rebaixada e deve disputar a Série Ouro em 2027.
Em nota após o resultado da apuração, a escola alegou sofrer "perseguições vindas de gestores do próprio Carnaval carioca", citando o que chamou de "tentativas de interferência direta na nossa autonomia artística, com pedidos de mudança de enredo, questionamentos sobre a letra do samba e outras ações que buscaram nos enquadrar e nos silenciar".
