Pré-campanha de Flávio registra aumento de ataques, mas senador deve 'jogar parado'

Por ANA LUIZA ALBUQUERQUE

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL) identificou um aumento de ataques contra o senador nas redes sociais nas últimas semanas, em meio ao crescimento do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) nas pesquisas eleitorais. A estratégia, por enquanto, é de continuar a "jogar parado", sem "bater boca" com o presidente Lula (PT) e seus aliados.

Integrantes do PT e da base de Lula têm a expectativa de que Flávio derreta nas pesquisas com a intensificação dos ataques contra ele, com a aproximação da campanha eleitoral. Como mostrou a coluna Painel, no fim do mês passado, o presidente do PT, Edinho Silva, pediu uma ofensiva contra o senador em discurso aos dirigentes do partido, cobrando mobilização da militância petista.

Até aqui, os ataques ao senador foram comedidos. No meio político, a avaliação é de que a pré-campanha do presidente considerava Flávio um adversário mais fácil de ser derrotado do que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Por isso, a estratégia seria poupar o filho de Bolsonaro até o início de abril ?prazo máximo, segundo a lei eleitoral, para que Tarcísio deixasse o cargo para concorrer ao Planalto.

Nos últimos meses, porém, o ciclo de notícias foi negativo, com o caso Master, que desgastou a imagem do Supremo Tribunal Federal, e com as menções ao filho de Lula, Fábio Luís Lula da Silva, nas investigações sobre o escândalo de fraudes no INSS.

Desde o anúncio de sua pré-candidatura até o momento atual, pesquisas eleitorais identificaram crescimento significativo das intenções de voto em Flávio. Nos cenários de primeiro turno testados pelo Datafolha no início de março, o senador aparece atrás de Lula por cinco ou seis pontos. No segundo turno, estão empatados tecnicamente ?o presidente tem 46% e o senador, 43%.

Professor de comunicação política na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Beto Vasques avalia que o cenário de segundo turno foi antecipado de forma atípica. Ele pondera que, embora as taxas de intenções de voto em Flávio tenham crescido, sua rejeição também.

Em dezembro, segundo o Datafolha, o filho de Bolsonaro era rejeitado por 38% dos eleitores. Na última pesquisa, no início do mês, essa porcentagem subiu para 45%.

"Pela alta da rejeição do Flávio, nada nos habilita a dizer que ele está numa curva ascendente. Ele está antecipando um potencial de voto que a gente esperava ver em setembro, mas é junto com a rejeição", diz Vasques, que acumula uma série de campanhas eleitorais em sua trajetória.

O monitoramento do entorno do senador identificou nas últimas semanas crescimento nas menções negativas nas redes, com termos como "rachadinha" e "Bolsomaster", buscando vincular o grupo bolsonarista ao escândalo do banco de Daniel Vorcaro.

Um integrante da pré-campanha disse à reportagem que essas menções estão restritas à bolha petista e que, como o PT está falando para convertidos, elas não demandam resposta.

O filho de Bolsonaro tem apostado em se apresentar como a versão moderada do pai para conquistar os eleitores independentes, que devem decidir as próximas eleições.

Esse mesmo integrante diz acreditar que o tema da corrupção é negativo para a esquerda, por conta dos históricos do mensalão e da Lava Jato, e que o presidente não terá sucesso em explorá-lo contra Flávio.

Para ele, os casos pelos quais o senador foi investigado ?a "rachadinha" e a suposta lavagem de dinheiro por meio de imóveis e de uma loja de chocolates? são antigos, de conhecimento do eleitor, e não devem ter impacto significativo.

Flávio foi denunciado em novembro de 2020 pela Procuradoria-Geral de Justiça do Rio de Janeiro, mas as investigações foram encerradas após o STF (Supremo Tribunal Federal) e o STJ (Superior Tribunal de Justiça) anularem no ano seguinte as provas coletadas. Ele sempre negou as acusações.

Nas redes sociais, aliados de Lula sugerem que o crescimento do senador nas pesquisas ocorre porque a pré-campanha do presidente ainda não está a todo vapor. O deputado federal André Janones (Avante), por exemplo, disse aos seguidores para não se preocuparem com esses levantamentos. "Quando a gente começar a descer o cacete no Flávio, ele vai derreter", escreveu no X.

Presidente do PP e aliado de Flávio, o senador Ciro Nogueira diz à Folha de S.Paulo que considera difícil que o filho de Bolsonaro desidrate. "Em 2022, o sentimento era de que as pessoas votaram em Lula para derrotar Bolsonaro. Agora está acontecendo o inverso, as pessoas vão votar no Flávio para derrotar Lula."

Para ele, há um desgaste e um cansaço em relação ao material que o presidente pode explorar na campanha. "Eles apostaram tudo em [ampliar a isenção do] Imposto de Renda e não houve efeito eleitoral."

O senador também concorda com a avaliação de que as investigações passadas contra Flávio não terão grande impacto. "Isso é coisa superada. É como dizer que vai derrubar Lula com mensalão ou petrolão. A não ser que tenham coisas novas. Acho muito pior para o Lula, com a questão do filho dele."

O professor e estrategista Beto Vasques avalia que Flávio subiu nas pesquisas por dois motivos. Primeiro, porque conseguiu se consolidar como o candidato da direita. Segundo, porque "jogou desmarcado", ou seja, sem ter sido alvo da artilharia petista.

"Com a marcação, Flávio vai piorar, obviamente. Mas o quanto [vai piorar] se está por ver. Ele vai ter que gastar uma energia driblando", diz Vasques. "Hoje ele vai de estúdio em estúdio de blogueiro, programa de televisão, eventos. Agora vai ter que gastar parte do tempo respondendo."

Para o professor, Flávio pode ser confrontado com questões do passado familiar e com sua falta de experiência de gestão.

Por outro lado, Vasques afirma que pesquisas qualitativas dos últimos cinco anos indicam que o eleitor independente, fundamental na próxima eleição, espera um processo transitar em julgado para considerar um político efetivamente culpado.

Nesse sentido, o arquivamento dos processos contra o senador deve aliviar o efeito dos ataques envolvendo o caso da "rachadinha". "Esse carimbo fica frágil. Da mesma forma com o Lula, quando o julgamento [na Lava Jato] foi desconsiderado."