Domiciliar de Bolsonaro deve ampliar influência de Michelle na campanha de Flávio, avaliam aliados

Por CAROLINA LINHARES

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Membros do PL e integrantes da pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmam que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) vai influenciar ainda mais as decisões políticas de Jair Bolsonaro (PL) após ele ser transferido para a prisão domiciliar. Ao mesmo tempo, dizem que a medida tende a intensificar a participação do pai nas articulações do filho.

A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), de conceder prisão domiciliar temporária de 90 dias diz que apenas Michelle e médicos do ex-presidente terão acesso irrestrito ao ex-presidente.

Mesmo os advogados de Bolsonaro, que podem visitá-lo todos os dias da semana, precisam de agendamento prévio e têm horário limitado das 8h20 às 18h, com permanência máxima de 30 minutos. É nessa condição que se encaixa Flávio, inscrito como integrante da equipe de defesa do pai.

Por isso, bolsonaristas ouvidos pela reportagem dizem esperar que Bolsonaro seja mais exposto às opiniões políticas da mulher, que, como mostrou a Folha de S.Paulo, tentará emplacar uma série de aliadas nas eleições deste ano.

Algumas decisões tomadas por Bolsonaro na Papudinha já foram atribuídas à influência de Michelle ?por exemplo, a escolha da deputada Caroline de Toni (PL-SC) e do deputado Marcos Pollon (PL-MS) para concorrerem ao Senado. Michelle, por sua vez, deve concorrerà Casa pelo Distrito Federal.

A ex-primeira-dama é criticada por alguns aliados de Flávio por não ter embarcado em sua campanha. Enquanto parte dos bolsonaristas diz acreditar que a preponderância dela sobre Bolsonaro pode agravar esse racha na família, outros afirmam que, pelo contrário, Bolsonaro agora poderá agir como ponte e recompor o diálogo entre a mulher e o filho.

A decisão de Moraes foi concedida no dia seguinte à visita de Michelle ao ministro para reforçar o pedido por domiciliar. Apesar de a ofensiva pela transferência de Bolsonaro ter envolvido também Flávio e outros políticos, a ex-primeira-dama sai fortalecida desse episódio, com uma imagem conciliadora, segundo parlamentares.

Com isso, aliados de Michelle temem que ela seja ainda mais atacada por bolsonaristas e membros do clã como reação ao seu protagonismo.

Enquanto a convivência entre Michelle e Bolsonaro será significativamente ampliada, o convívio entre o ex-presidente e o senador está submetido às mesmas regras da Papudinha. Na condição de filho, e não de advogado, Flávio pode visitar o pai às quartas-feiras e sábados, das 8h às 10h ou das 11h às 13h ou das 14h às 16h.

Alguns interlocutores de Flávio e de Bolsonaro minimizam o efeito político da prisão domiciliar, argumentando que o ex-presidente segue com comunicação restrita, como ocorria na Papudinha.

A decisão de Moraes, dizem eles, até restringe sua situação anterior ao suspender por 90 dias demais visitas a Bolsonaro. Moraes afirma que a medida é necessária no "período de recuperação do custodiado, para resguardar o ambiente controlado necessário, principalmente para se evitar o risco de sepse e controle de infecções".

Como mostrou a Folha de S.Paulo, Bolsonaro vinha recebendo uma série de visitas de pré-candidatos interessados em seu apoio eleitoral, o que agora está vetado até pelo menos o fim de maio.

Em entrevistas a canais de TV, Flávio afirmou que a decisão de Moraes é política e exótica por valer apenas 90 dias, mas representa um primeiro passo por justiça. O senador diz que o pai é inocente e foi julgado por seus inimigos.

Ele reclama, por exemplo, das restrições impostas aos advogados, argumentando que o acesso deles ao ex-presidente deveria ser livre. Diz ainda que a restrição de visitas não tem "nada a ver com os tipos de problemas de saúde" do pai.

"Claramente, há um viés político nessa decisão para dificultar, pelo menos, as conversas, as articulações políticas na iminência das eleições", disse à CNN.

Internado com broncopneumonia desde o último dia 13, Bolsonaro segue sem previsão de alta hospitalar. Ele deixou a UTI (Unidade de Terapia Intensiva) na noite de segunda-feira.

O agravamento do estado de saúde do ex-presidente foi o principal argumento dos pedidos por domiciliar feitos a Moraes pela defesa e também por outros atores nos últimos dias ?a ofensiva envolveu Michelle, Flávio, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), outros ministros da corte e deputados da direita.

Ainda de acordo com aliados de Bolsonaro, a decisão de Moraes vai permitir a recuperação da saúde do ex-presidente, o que é visto como prioridade em relação às articulações políticas da campanha.

De qualquer forma, a avaliação geral é a de que Bolsonaro terá uma melhora em sua saúde e sua disposição ao cumprir pena em casa, o que consequentemente deve impulsionar sua atuação política. Há quem aposte que o ex-presidente vai acabar assumindo, informalmente, a coordenação da campanha do filho, que hoje está a cargo do senador Rogério Marinho (PL-RJ).

Por outro lado, parlamentares afirmam que deve haver cautela em relação à participação de Bolsonaro na campanha do filho, sob pena de que ele seja punido novamente com a transferência para a Papudinha, dado que a decisão de Moraes é temporária.