Flávio faz dancinhas para mirar TikTok e jovens da periferia, mas aliados rejeitam iniciativa
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Sucesso no Rio de Janeiro desde os anos 2000, "A Dança do Créu", de MC Créu, ainda agita o fim de festa, avisando que para dançar "tem que ter disposição". Do verso não se extrai nada além do óbvio, mas estar bem disposto parece ter se tornado uma virtude neste ano eleitoral. O senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 44, adotou um jingle próprio, o "Funk do 01", e começou a dançar em sua pré-campanha.
Consultores de marketing político afirmam que Flávio deseja mostrar jovialidade, estabelecendo um contraste com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80. O filho 01 de Jair Bolsonaro mira o público do TikTok, rede social que se distingue pelas dancinhas em vídeos curtos. Segundo os especialistas, o senador mobiliza a cultura periférica, almejando os votos da juventude que mora nessas regiões. Ao mesmo tempo, o entorno de sua pré-campanha rejeitou a coreografia, dizendo se tratar de um tiro no pé.
"Dançar gera a percepção de que ele é saudável e mais em forma do que Lula", diz o consultor de marketing político Lucas Pimenta. No fim de semana passado, Flávio foi ao Nordeste, onde promoveu dois eventos, um em João Pessoa, Paraíba, e outro, em Natal, Rio Grande do Norte. Flávio vestiu uma camiseta onde se lia "Nordeste é a solução" e foi anunciado ao som daquele jingle, feito com inteligência artificial, sobre a chegada de um "novo capitão".
"Segura a pressão que o time tá on/ É Deus e família no mesmo tom/ Esquece o passado/ Foca o que vem", diz a letra. Acompanhando o batidão, o "novo capitão" desceu as passarelas montadas nos eventos, emulando o jogo de corpo do passinho, estilo de dança atrelado ao funk.
Arriscou-se em passos à direita e à esquerda, tentando fazer alguns giros. Aliado do senador, o deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO) comparou os movimentos aos de um orangotango. Auxiliares da pré-campanha também desaprovaram as dancinhas. Diante da repercussão nas redes, dizem eles, aquelas cenas nunca deveriam ter existido, porque deram uma impressão ridícula, resultando em um tiro no pé.
Para Pimenta, Flávio buscou, em primeiro lugar, chamar a atenção em um mundo marcado pelo excesso de informações. Quanto ao jingle, o consultor diz ser construído de modo a ajudar no que ele chama de efeito de tribo, isto é, a criação de um ritual a ser repetido pelos apoiadores.
Na visão de Pimenta, Flávio tenta evitar que 2026 seja um espelho de 2022, quando o ex-presidente enfrentou rejeição dos mais jovens. Em julho daquele ano, pesquisa Datafolha mostrou que 67% das pessoas de 16 a 29 anos desaprovavam a reeleição de Bolsonaro.
Pesquisa Datafolha mais recente mostra que Flávio já apresenta rejeição menor que a do pai no segmento de jovens de 16 a 24 anos --40%, quatro pontos percentuais a menos do que a desaprovação de Lula.
Especialista em marketing eleitoral, Felipe Soutello enfatiza a escolha da dança como parte integrante da gestualidade do pré-candidato. "A dança tem, sobretudo se consideramos a herança dos rituais dos povos originários, uma força política por natureza e quase todo adolescente hoje faz dancinha no TikTok", afirma.
Soutello é cético em relação à capacidade de Flávio demonstrar jovialidade dançando. Afinal, afirma, políticos com idade avançada deram exibicionismos com a mesma natureza nesses últimos anos.
A tendência foi capitaneada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que, há dois anos, usou "YMCA", do grupo Village People, como trilha sonora da campanha. Nos comícios, seus apoiadores repetiam a coreografia do republicano, fechando as duas mãos para dar soquinhos. Um destino curioso para uma música que, nos anos 1970, era um distintivo gay.
O ex-ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, também resolveu mostrar que nasceu para bailar --mas se deu mal. No início do ano, foi capturado pelas forças americanas, porque, entre outros motivos, Trump se irritou com a dancinha de Maduro pedindo paz.
No Brasil, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), deixou-se flagrar, mais de uma vez, dançando em festas. A cena logo viralizou nas redes sociais. Enquanto Flávio aposta no funk, Lula posta vídeos com suas corridinhas, sugerindo estar bem disposto.
Também consultor de marketing político, Rodolpho Dalmo conta que as dancinhas de Flávio passam por uma tática de despolitizar a sua figura, em favor do entretenimento, para se aproximar do eleitorado e só então se apresentar como candidato viável. "É uma despolitização para se politizar, ele precisa parecer que é um cara comum", diz Dalmo.