Ataques por posse na Comissão da Mulher são distração, diz Erika Hilton

Por Folhapress

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) afirmou que o debate sobre sua eleição para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara foi "contaminado por um discurso odioso" que serviu como uma distração para problemas enfrentados pelas mulheres brasileiras.

Em entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura, nesta segunda-feira (30), a parlamentar afirmou que não deixará que a onda de ataques paute o trabalho da comissão e que sua prioridade será o enfrentamento à "epidemia de violência contra as mulheres", citando o aumento de feminicídios, de casos de estupro e de discursos de grupos misóginos.

"As mulheres brasileiras esperam das instituições respostas contundentes", afirmou. "Nós, enquanto uma casa de leis, não podemos perder tempo debatendo ódio."

Ela disse que mensagens de ódio disseminadas contra ela nas redes sociais são em parte impulsionadas por "escritórios do ódio" comandados por agentes públicos.

"Há um dossiê, um material vasto de parlamentares dos mais diversos campos, do Poder Legislativo Federal, Estadual, Municipal, de vários municipios do brasil que financiaram, que pagaram, que impulsionaram discursos de ódio contra mim", disse a deputada.

A deputada também cobrou o cumprimento da decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) que equiparou a LGBTfobia ao crime de racismo. Ela disse que casos "abertamente transfóbicos" são arquivados ou desqualificados nos tribunais. "Nós conquistamos o direito e agora precisamos brigar pelo direito de exercer o direito", disse.

"Era importante que o Supremo Tribunal Federal não permitisse que alguns órgãos dos Judiciários debochassem da sua decisão", afirmou.

Ela foi eleita presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara em 11 de março, com 11 votos favoráveis em segundo turno, após a primeira tentativa ser barrada pela maioria de votos em branco. É a primeira mulher trans a presidir uma comissão na Casa.

A escolha gerou reação de parlamentares bolsonaristas e também expôs divisões dentro da própria esquerda, entre quem a reconhece como representante legítima das mulheres e setores do feminismo que contestam essa posição com base no sexo biológico. A deputada substituiu Célia Xakriabá (PSOL-MG) no posto.

A deputada disse que o senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) "não tem o discurso de alguém que quer presidir uma nação e fazer os direitos do povo brasileiro". "Ninguém que quer defender o Brasil e os brasileiros vai aos EUA oferecer seu país", afirmou.

A parlamentar também disse que a decisão do PSOL de não formar uma federação com o PT foi "profundamente errada" não só para o partido, mas para o campo da esquerda. Segundo a deputada, ela e o ministro Guilherme Boulos (Secretaria-Geral) quiseram ficar na legenda para não prejudicá-la e evitar o risco de não alcançar a cláusula de barreira.

A legenda está rachada por causa da decisão de sua direção de recusar a formação de uma federação com o PT. O grupo Revolução Solidária, de Boulos e de Hilton, discutia a possibilidade de migrar para o partido do presidente Lula.

Além do ministro e da deputada, integram o movimento nomes como a deputada federal Luciene Cavalcanti, o deputado federal Henrique Vieira, a pré-candidata à Câmara Natalia Boulos, os deputados estaduais Carlos Giannazi (SP), Ediane Maria (SP), Renata Souza (RJ), Yuri Moura (RJ), Dani Monteiro (RJ), Bella Gonçalves (MG) e vereadores como Rick Azevedo.