Após denúncia da PGR, Silvio Almeida fala em 'acusações irresponsáveis'
SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - O ex-ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almeida, publicou, na noite de ontem, um vídeo nas redes sociais em que afirma ser um "homem inocente" das acusações contra ele de assédio sexual e critica a forma como o presidente Lula (PT) o demitiu.
No vídeo, ele rebate afirmações de que seria um "homem poderoso". Em uma crítica ao presidente Lula, o ex-ministro disse que se fosse uma pessoa com poderes não teria sido demitido em menos de 24 horas sem direito à defesa.
O então ministro foi demitido do cargo dois dias após as primeiras acusações contra ele. Silvio Almeida foi retirado da pasta na noite do dia 6 de setembro de 2024. Na época, Lula disse que a manutenção do ministro à frente da pasta dos Direitos Humanos diante das acusações seria "insustentável".
Silvio Almeida quebrou o silêncio e afirmou que vai se defender na Justiça. O ex-ministro explicou que ficou calado até agora por respeito à família, à lei e ao avanço das investigações, que estão sob sigilo.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, assinou a denúncia no dia 4 de março, contra Silvio Almeida por importunação sexual contra a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco. O processo está sob sigilo no STF (Supremo Tribunal Federal) e tem como relator o ministro André Mendonça.
Sem dizer nomes, o ex-ministro fez referência à ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, indicando que o caso teria sido utilizado de forma política. "Sua distorção funcionou tão bem nesse caso", diz ele no vídeo, logo após enaltecer a importância da luta das mulheres contra a violência.
Ele afirma que há "movimentações previsíveis" de adversários que, segundo Almeida, não teriam realizações ou propostas e recorreriam "ao ponto de incriminar uma pessoa inocente apenas para eliminar" da vida pública. Além disso, alega que, durante o inquérito, não pôde se defender.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva nomeou a deputada estadual Macaé Evaristo para o lugar de Silvio Almeida como nova ministra dos Direitos Humanos. O convite para a deputada foi confirmado pelo próprio presidente em sua rede social.
O ex-ministro apontou racismo e estereótipos na condução do episódio. Ele declarou que sua imagem foi ligada à "brutalidade e ao descontrole", marcas historicamente usadas contra homens negros. E completou que "uma mentira circulou como se fosse verdade".
Segundo ele, a situação mostra como "homens e meninos pretos são vistos com suspeita permanente" e como é mais fácil projetar sobre eles a ideia de ameaça. Silvio Almeida ainda sustenta que foi alvo de um "linchamento público" que distorceu a causa legítima da luta contra a violência de gênero.
Crítica ao Me Too. Sem citar a ONG, o ex-aliado de Lula disse que a entidade que afirma ter recebido denúncias contra ele "não apresentou às investigadoras nem as informações mais elementares, mais básicas, para atestar que essas denúncias existiam de fato".
Em janeiro deste ano, a Justiça de São Paulo arquivou a ação movida por Silvio Almeida contra a ONG Me Too Brasil e sua diretora, Marina Ganzarolli pela publicação de uma nota acusando-o de assédio sexual. A juíza Márcia Blanes afirmou que pedir explicações a uma pessoa jurídica não é previsto em lei. Segundo ela, o Código Penal, ao regulamentar o pedido de explicações e os crimes contra a honra, não faz qualquer menção à pessoa jurídica como agente do delito.
ANIELLE VÊ 'RECONHECIMENTO DE VERDADE' APÓS DENÚNCIA DA PGR
A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, disse que a denúncia por importunação sexual representa "mais uma etapa para o reconhecimento da verdade". Em publicação no X (antigo Twitter) a ministra afirmou que a ação da PGR estimula mulheres a não sofrerem em silêncio.
Almeida teria importunado Anielle sexualmente pela primeira vez em 30 de dezembro de 2022. Ele teria se aproximado dela e dito: "Nossa, como você está linda e cheirosa hoje". Depois, ele teria feito sussurros eróticos nos ouvidos dela e passado a mão em suas pernas por baixo da mesa durante uma reunião.
O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, teria confirmado a versão da ministra sobre o caso. Rodrigues relatou à PGR que Anielle saiu abatida de uma reunião com Almeida e narrando "não aguentar mais", após episódio de desconforto.
HISTÓRICO DAS INVESTIGAÇÕES
A PF já havia indiciado Silvio Almeida em novembro do ano passado. A investigação apontou suspeita de importunação sexual contra Anielle e também contra a professora Isabel Rodrigues.
A ministra detalhou as abordagens em depoimento aos investigadores. Anielle disse à PF que "abordagens inadequadas" do ex-ministro acabaram se transformando em importunação física. Ao UOL, no ano passado, Almeida disse que a ministra se perdeu em um personagem e caiu numa armadilha política.
Ele já negou ter passado a mão nas pernas da titular da pasta em uma reunião ministerial. Ele também negou episódios de assédio enquanto dava aulas em universidades: "nunca tive nenhum tipo de acusação".