Viagens de táxi aéreo como as de Viviane Barci são raras em escritórios, dizem advogados

Por JOANA CUNHA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Diante de documentos revelados pela Folha de S. Paulo que indicam o uso de aviões de empresas ligadas a Daniel Vorcaro, do Banco Master, pelo ministro do STF Alexandre de Moraes e sua mulher, Viviane Barci, o escritório Barci de Moraes, do qual ela é sócia, afirmou que "contrata diversos serviços de táxi aéreo".

Mas a justificativa foi recebida com surpresa entre grandes escritórios do país, que consideram incomum o hábito de pagar jatinhos para as viagens de advogados e sócios.

A compra de passagens em rotas regulares operadas pelas companhias aéreas é a prática mais utilizada para os deslocamentos a trabalho, porque sai mais barato do que o aluguel de jatos privados.

Segundo advogados ouvidos pela reportagem, até mesmo nos escritórios que atuam em causas milionárias o orçamento com viagens não comporta gastos tão elevados.

Nas palavras de um advogado que pediu para não ter o nome divulgado, esse tipo de conforto é considerado algo fora da realidade, e o padrão exigido nas compras de passagens segue regras para economizar, inclusive em voos de carreira: os profissionais costumam ser orientados a reservar os bilhetes aéreos com duas semanas de antecedência para evitar as tarifas mais altas de última hora.

Há casos em que a compra de passagem de emergência só é liberada após a autorização de quatro sócios de um escritório.

Outro sócio de um grande escritório que também falou com a reportagem sob condição de anonimato admite que pode ser necessário alugar avião, mas é raro. Em décadas de carreira, ele diz ter usado o serviço exclusivo em apenas duas ocasiões.

Exceções podem ocorrer em processos mais vultosos, quando é preciso acompanhar o cliente em diligência em alguma autoridade policial ou no Judiciário. Há casos em que as reuniões exigem pressa, e as cidades onde ocorrem não têm rede diária de transporte aéreo convencional. Ainda assim, é preciso analisar se o contrato do cliente garante o reembolso de despesas de fretamento de aeronave.

De acordo com mais um advogado ouvido pela reportagem, há situações em que o próprio cliente do escritório é dono de uma aeronave e oferece carona aos advogados que o acompanham nas viagens a trabalho.

Essas ocasiões são consideradas excepcionais. Em outro exemplo, uma viagem ao interior do Amapá pode ser feita em voo de carreira para Macapá, mas o advogado terá de percorrer o trecho final em avião alugado, que pode ser um pequeno monomotor, mais barato do que os jatos Embraer que, conforme indicam documentos, foram utilizados por Viviane Barci e Moraes.

Todas as rotas associadas ao casal tiveram origem em Brasília e destino em São Paulo, um trajeto que, segundo advogados de grandes escritórios, dificilmente justifica os custos de um fretamento, porque costuma ter disponibilidade de assentos nos voos de carreira.

Para se ter uma ideia de preços, o aluguel de um Phenom 100 com 4 a 6 assentos de Brasília a Congonhas sai por aproximadamente US$ 13,3 mil (cerca de R$ 70 mil), segundo cotação no site da Flapper nesta quinta-feira (2). Em alguns modelos, o valor estimado do trecho supera US$ 17 mil (quase R$ 90 mil).

A alta frequência no uso dos aviões também surpreendeu os advogados ouvidos pela reportagem.

Segundo indicam os documentos, foram sete voos realizados entre maio e outubro de 2025 em aeronaves da Prime Aviation, empresa de compartilhamento de bens de luxo da qual Vorcaro era sócio por meio de um fundo e que tem autorização para realizar táxi aéreo.

Um oitavo voo, em agosto, foi feito em um Falcon 2000 da Dassault, placa PS-FSW, que pertence a uma empresa chamada FSW SPE, da qual é sócia a Moriah, holding que reúne negócios do pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro.

A notícia revelada pela Folha de S. Paulo também levantou surpresa entre advogados ao indicar a presença de Moraes em voos do escritório. Em nota enviada à reportagem, o ministro negou as informações e disse que são ilações "absolutamente falsas".

Também em nota, o Barci de Moraes disse que Vorcaro ou Zettel não estiveram presentes nos voos em aeronaves da Prime Aviation em que viajaram integrantes do escritório. Disse também que todos os valores eram pagos compensando os honorários advocatícios nos termos contratuais.

"A contratação desses serviços de táxi aéreo segue critérios operacionais e não envolve qualquer vínculo pessoal com proprietários de aeronaves ou operadores específicos", disse o escritório em nota.

O Barci de Moraes assinou em 2024 um contrato com o Banco Master prevendo remuneração mensal de R$ 3,6 milhões por três anos, segundo reportagem do jornal O Globo. O acordo foi encerrado em novembro de 2025, quando o Master foi liquidado.

Procurado novamente na quarta-feira (1º) para comentar a comparação feita por outros escritórios, o Barci de Moraes não quis comentar. O gabinete de Moraes voltou a classificar a reportagem como ilação e disse, mais uma vez, que ele "jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro ou em sua companhia e de Fabiano Zettel, a quem nem conhece".