Petistas históricos enfrentam plano de grupo de Lula no RS e resistem a apoiar Juliana Brizola
PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS) - A pressão do PT nacional para que o diretório do partido no Rio Grande do Sul abra mão de ter candidato próprio ao governo estadual para apoiar a ex-deputada Juliana Brizola (PDT) enfrenta resistência das lideranças mais antigas do partido no estado.
O grupo técnico do diretório nacional que define as estratégias eleitorais do PT publicou uma carta nesta terça-feira (7) cobrando que o partido integre a chapa encabeçada pela neta de Leonel Brizola.
O texto diz que o PT gaúcho deve considerar a estratégia nacional de reeleição do presidente Lula com uma base ampla de centro-esquerda, e construir "uma tática eleitoral conjunta com o PDT e demais partidos do campo democrático, sob a liderança da companheira Juliana Brizola, como expressão política dessa estratégia no estado".
Os petistas do estado querem lançar a governador o ex-presidente da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) Edegar Pretto, que já concorreu em 2022. Em resposta, Edegar divulgou uma carta própria afirmando que recebeu o documento do presidente do PT, Edinho Silva, e solicitou uma reunião do diretório estadual do partido para discutir o tema.
"A instância partidária que definiu a tática eleitoral no Rio Grande do Sul é soberana para decidir o meu papel nas eleições deste ano", disse o pré-candidato.
Em um ato organizado pela campanha de Edegar na noite de segunda-feira (6), os ex-governadores Tarso Genro e Olívio Dutra, além do ex-prefeito de Porto Alegre Raul Pont, defenderam, em discursos inflamados, a candidatura própria do partido ao governo do Rio Grande do Sul.
Ex-presidente nacional do partido, Tarso, que foi ministro da Educação e da Justiça nos primeiros mandatos de Lula, disse que uma intervenção é um desrespeito à militância e ao histórico do PT gaúcho, que comandou o estado duas vezes e governou Porto Alegre de 1989 a 2004.
"Eu não acredito que eles tenham coragem de fazer uma intervenção para dizer para a miltancia aqui no estado que a nossa candidata é de outro partido", disse.
Já Olívio Dutra liderou gritos de "Lula, Edegar" e pediu a união de "nossos partidos da esquerda, no campo democrático popular, contra o estado privatizado". A aliança, até o momento, também conta com apoio do PC do B, PSB, Rede Sustentabilidade e PV.
Edegar se viabilizou como candidato ao governo logo após surpreender nas eleições de 2022, quando chegou ao terceiro lugar com 26,77% e não tirou o candidato à reeleição, Eduardo Leite, do segundo turno por apenas 2.441 votos.
Ligado à agricultura familiar e um dos poucos nomes do PT com bons resultados no campo, ele foi escolhido pelo presidente Lula para comandar a Conab em seu terceiro mandato.
A principal ausência do ato foi o deputado federal Paulo Pimenta, um dos aliados mais próximos do presidente no estado e pré-candidato ao Senado.
Procurada, a assessoria do deputado disse que ele não foi ao evento devido a agendas ligadas à entrega do relatório da maioria da CPMI do INSS.
Porém, políticos ligados ao grupo de Pimenta, como a deputada estadual Laura Sito e a vereadora de Porto Alegre Natasha Ferreira, também não estiveram presentes e não se manifestaram sobre o evento nas redes sociais.
Lula recebeu Juliana e o presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, no Palácio do Planalto, em fevereiro, para debater a possibilidade de apoio.
Além da resistência de parte da militância petista, o PSOL já sinalizou que não deve participar da aliança caso a pedetista seja a cabeça de chapa, o que pode alterar a disputa ao Senado. A ex-deputada Manuela D?Ávila, que se filiou ao partido depois de 20 anos no PC do B, é a outra pré-candidata ao Senado pelo grupo e discursou no ato em defesa da candidatura de Pretto.
Segundo a deputada federal Fernanda Melchionna, pesa o fato de que o PDT integrou a base do governador Eduardo Leite (PSD) em seus dois mandatos. O PSOL critica Leite pela privatização de empresas públicas e políticas econômicas implementadas durante sua gestão.
O apoio ao atual governo também foi alvo de críticas de Raul Pont, petista que governou Porto Alegre de 1997 a 2001. "Como é que vamos fazer campanha para uma pessoa que ha 12 anos apoia o neoliberalismo?", questionou, citando o apoio do PDT a José Ivo Sartori (MDB), antecessor de Leite.
Na segunda-feira, Juliana divulgou nota conjunta com o diretório nacional e estadual do PDT reiterando apoio à reeleição de Lula e citou seu histórico contra as privatizações das empresas estaduais CEEE (energia) e Corsan (água e saneamento).
Ela também disse que tentou construir unidade, "mesmo com divergências", com setores do centro e da centro-direita para ajudar na reconstrução de Porto Alegre após a tragédia climática de 2024.
À época, ela disputou a prefeitura e recebeu apoio de Eduardo Leite, então no PSDB, como uma alternativa ao PT, que lançou a deputada federal Maria do Rosário, e ao bolsonarismo, que apoiou o então candidato à reeleição, Sebastião Melo (MDB).
Juliana ficou em terceiro com 19,96% dos votos, seis pontos percentuais abaixo de Maria do Rosário. A disputa se resolveu no segundo turno, com a vitória de Melo, com 61,53% dos votos.
O partido também confirmou na segunda-feira que o PDT deixou a base de Leite, que faz campanha para seu vice, Gabriel Souza (MDB), como sucessor.