Lula e Flávio Bolsonaro duelam por palanques, barram candidaturas e priorizam alianças amplas

Por JOÃO PEDRO PITOMBO

SALVADOR, BA (FOLHAPRESS) - A seis meses da eleição presidencial, o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) mobilizam seus times, acirram o duelo por aliados e atuam para garantir palanques competitivos nos estados.

A estratégia passa por barrar projetos de candidaturas próprias nos estados, tourear crises internas dentro dos partidos e contemplar aliados para ganhar capilaridade para as eleições de outubro.

O PT avançou na definição dos palanques nas últimas semanas e caminha para ter candidaturas próprias ao governo em apenas dez unidades da federação -o número é inferior a 2022, quando a legenda teve 13 candidatos a governador, e a 2018, quando foram 16.

Em outros 14 estados, o partido vai apoiar candidatos a governador de outras legendas. Estão previstas alianças de nomes do PSB e PDT, que fazem parte da base de Lula, além de candidatos do MDB, PSD, PP e até União Brasil, partidos que dificilmente estarão no palanque oficial do presidente.

Parte das alianças deixou cicatrizes na relação entre a cúpula nacional do PT e líderes locais. Foi o caso do Rio Grande do Sul, onde a Comissão Executiva do PT deu um ultimato ao diretório estadual para apoiar a pré-candidatura de Juliana Brizola (PDT) ao governo.

O PT gaúcho defendia o ex-deputado estadual Edegar Pretto para disputar o Palácio do Piratini. Nesta quinta-feira (9), o diretório local aceitou apoiar o PDT em prol da unidade. Mas a decisão de cima para baixo deixou um rastro de descontentamento entre os petistas gaúchos.

O Rio Grande do Sul foi um dos três estados nos quais o PDT pediu o apoio do PT para entrar formalmente na aliança nacional lulista. Os outros são o Paraná, onde o PT já fechou uma aliança com Requião Filho (PDT), e Minas Gerais, estado onde a negociação tende a ser mais difícil.

O PDT defende a candidatura do ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil, mas o presidente Lula tenta convencer o senador Rodrigo Pacheco, que se filiou ao PSB no fim da janela partidária, a concorrer ao governo mineiro.

Um dos principais aliados do PT nos estados será o PSD, partido que confirmou a candidatura do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado ao Planalto. O PT deve apoiar candidatos da legenda no Rio de Janeiro, Mato Grosso e Amazonas.

Também há possibilidade de aliança com o PSD em Sergipe, onde o governador Fábio Mitidieri endossa a reeleição de Lula.

Em outros estados do Nordeste, o PT trabalha para ter mais de um palanque apoiando o presidente. É o caso da Paraíba, onde o partido selou apoio à reeleição de Lucas Ribeiro (PP), mas atua para ter Cícero Lucena (MDB), ex-prefeito de João Pessoa, no palanque do presidente Lula.

O cenário é semelhante em Pernambuco. A despeito do apoio formal do PT a João Campos (PSB), a cúpula do partido trabalha para que o presidente também seja apoiado pela governadora Raquel Lyra (PSD).

Os palanques seguem indefinidos em Goiás e no Tocantins, onde há dúvidas sobre lançar ou não candidato, e Maranhão, onde há um racha do PT com o governador Carlos Brandão (sem partido).

O PL vive um cenário de maior indefinição na construção dos palanques para a candidatura do senador Flávio Bolsonaro. O partido colocou como meta lançar ao menos uma candidatura ao governo ou Senado em todos os 26 estados e no Distrito Federal.

A sigla tem pré-candidatos a governador em 12 estados, incluindo grandes colégios eleitorais como Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Em 2022, quando Jair Bolsonaro disputou a reeleição para a Presidência, foram 13 candidatos.

Nas últimas semanas, o PL buscou reforçar sua presença no Nordeste com a filiação de Álvaro Dias, ex-prefeito de Natal e pré-candidato ao Governo do Rio Grande do Norte, e do senador Efraim Filho, que deixou o União Brasil para concorrer ao Governo da Paraíba.

Também estão encaminhadas alianças com outros partidos em seis estados e no Distrito Federal. Cinco deles são da federação entre União Brasil e PP, legendas que Flávio Bolsonaro trabalha para trazer para o seu arco de alianças.

Na Bahia, ao contrário de 2022, a legenda fechou uma aliança com o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil). Mas a chapa enfrenta atritos e não deve caminhar unida na eleição presidencial.

ACM Neto tem endossado Ronaldo Caiado, de quem é amigo, em uma estratégia que busca blindá-lo da rejeição ao bolsonarismo na Bahia. Já os candidatos ao Senado da chapa, o ex-ministro João Roma e o senador Angelo Coronel (Republicanos), estarão no palanque de Flávio.

No Ceará, o filho mais velho de Bolsonaro chegou a sinalizar uma aliança com o ex-governador Ciro Gomes (PSDB), mas recuou nesta semana e afirmou em entrevista que as negociações estão temporariamente suspensas.

O apoio do PL a Ciro Gomes enfrenta resistência da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que defende a candidatura do senador Eduardo Girão (Novo) ao Governo do Ceará. Ciro foi adversário de Bolsonaro nas eleições de 2018 e 2022, com um histórico de críticas duras ao ex-presidente.

Outro nó a ser desatado é Minas Gerais, onde a legenda se divide entre apoiar o governador Mateus Simões (PSD), o senador Cleitinho (Republicanos) e lançar ao governo o empresário Flávio Roscoe, que se filiou ao PL. Também há indefinições em estados como Pernambuco, Maranhão e Espírito Santo.

Em estados do Norte, a tendência é que Flávio Bolsonaro tenha palanques duplos ou triplos. No Acre, três pré-candidatos disputam a direita bolsonarista: a governadora Mailza Assis (PP), que se aliou ao PL, o senador Alan Rick (Republicanos) e o ex-prefeito de Rio Branco Tião Bocalom (PSDB).

Mesmo com promessa de polarização na eleição presidencial, PT e PL devem se enfrentar diretamente em poucos estados. Entre os pré-candidatos lançados pelas siglas, o embate acontece apenas no Rio Grande do Norte, Rondônia e Piauí.