Lula fala em adotar reciprocidade após ação do governo Trump contra policial brasileiro

Por JOSÉ HENRIQUE MARIANTE

HANNOVER, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta terça-feira (21) em Hannover que o governo pode tomar medidas contra policiais americanos no Brasil se ficar comprovado algum tipo de abuso contra Marcelo Ivo, adido da Polícia Federal em Miami alvo das autoridades americanas.

Ivo teve participação no caso que levou à prisão do ex-delegado federal e ex-deputado pelo PL Alexandre Ramagem, na semana passada, pelo ICE, a agência de imigração dos Estados Unidos. Ramagem, foragido da Justiça brasileira, foi solto dois dias depois, na quarta-feira (15).

"Não sei o que aconteceu. Fui informado hoje de manhã. Acho que, se houve um abuso das autoridades americanas com nosso policial, nós vamos fazer a reciprocidade com os deles no Brasil", declarou Lula, na saída do hotel em que ficou hospedado na Alemanha.

O presidente estava no país para a Hannover Messe, maior feira industrial do mundo, que nesta edição tem o Brasil como país homenageado.

"Queremos fazer as coisas da maneira mais correta possível, mas não podemos aceitar esse tipo de ingerência que alguns personagens querem ter em relação ao Brasil", disse o presidente, antes de seguir para a última etapa de sua viagem à Europa, Portugal.

Na segunda-feira, o governo Donald Trump afirmou que um funcionário brasileiro teria atuado para manipular o sistema de imigração e "contornar tanto pedidos formais de extradição quanto prolongar caças às bruxas políticas em território" americano. Ivo retorna ao Brasil nesta terça-feira (21).

"Nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar tanto pedidos formais de extradição quanto prolongar caças às bruxas políticas em território dos EUA. Hoje, solicitamos que o funcionário brasileiro relevante deixe nossa nação por tentar fazer isso", diz um post da Embaixada dos EUA no Brasil.

Outro post idêntico foi publicado pelo escritório de relações ocidentais do Departamento de Estado dos EUA.

Após a prisão do ex-deputado, no dia 13, a Polícia Federal afirmou que houve uma ação conjunta entre EUA e Brasil. O ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) disse na ocasião que a prisão pelo serviço de imigração foi motivada por uma suposta infração de trânsito leve.

Pouco antes da manifestação do presidente, o chanceler Mauro Vieira declarou lamentar o episódio. "O delegado da PF que estava em Miami trabalha em conjunto com as autoridades americanas, e essa função é baseada em um memorando de entendimento. Portanto, todos sabiam e trabalharam em conjunto", afirmou o ministro.

"Estamos aguardando esclarecimentos das autoridades americanas sobre a razão desta medida que foi tomada."

Ao lado de Vieira, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, que também faz parte da comitiva presidencial na Alemanha, afirmou que Ivo trabalhava há dois anos em Miami "fazendo a atividade policial que normalmente fazemos em 34 países".

Ele negou que Ivo, que não citou nominalmente, estivesse sendo trocado antes do prazo natural de remoção da função.

Em Hannover e Barcelona, escala anterior desta viagem à Europa, Lula fez severas críticas à atuação dos EUA na guerra do Irã. "[Donald] Trump não foi eleito imperador do mundo", chegou a afirmar à imprensa alemã. Nesta terça, voltou a cobrar a reforma do Estatuto e do Conselho de Segurança da ONU, quase um mantra do petista nos últimos dias.

Em Portugal, o presidente será recebido pelo primeiro-ministro, Luís Montenegro e, depois, em almoço, pelo novo presidente do país, António José Seguro.

A comitiva brasileira retorna ainda nesta terça a Brasília.