Alcolumbre mira reeleição ao rejeitar Messias e reage ao que diz ver como ingratidão do governo Lula

Por THAÍSA OLIVEIRA E RAPHAEL DI CUNTO

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Senadores afirmam que, ao trabalhar pela derrota histórica de Jorge Messias, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), quis devolver o que via como ingratidão do governo Lula (PT), demonstrar força e marcar pontos com o grupo bolsonarista de olho na reeleição dele para a presidência da Casa no próximo ano.

Parlamentares da base aliada dizem não entender o que motivou a ira de Alcolumbre e admitem surpresa com o placar desfavorável de 34 votos a 42, mas apontam diferentes episódios de desgaste com o governo nos cinco meses que separaram a indicação de Messias, em 20 de novembro, da sabatina, nesta quarta-feira (29).

Pessoas próximas ao senador afirmam que ele nunca engoliu o fato de o ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSB-MG), que considera como um irmão, não ter sido escolhido por Lula para o STF (Supremo Tribunal Federal).

Nos últimos meses, Alcolumbre disse que via a cadeira aberta com a aposentadoria antecipada do ministro Luís Roberto Barroso como uma vaga extra, que deveria ser preenchida pelo Senado.

Segundo relatos, Alcolumbre afirmou mais de uma vez que os dois indicados anteriores de Lula, Cristiano Zanin e Flávio Dino, só foram aprovados com o apoio do grupo de senadores próximos a ele e que o petista deveria retribuir a ajuda.

Integrantes do governo, por sua vez, afirmavam que a prerrogativa de indicar integrantes do Supremo é da Presidência e que não caberia ao Legislativo exigências nesse sentido.

Apesar disso, pessoas próximas a Alcolumbre afirmam que, na visão dele, Lula também demonstrava falta de reconhecimento não só com o Senado, de forma geral, mas sobretudo com Pacheco, que se desgastou com o eleitorado ao defender a democracia e enfrentar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ?e que seria legítimo, portanto, que ele fosse recompensado com uma vaga de ministro.

Aliados de Alcolumbre também fazem uma linha do tempo para pontuar tudo o que o irritou desde que Pacheco foi preterido para a vaga. O presidente do Senado reclamou de não ter sido avisado previamente pelo governo de que Messias seria anunciado como escolhido.

No que parecia ser o auge da crise, dias após o anúncio, Alcolumbre divulgou uma nota dura dizendo que ele e o Congresso estavam sendo ofendidos por "setores do Executivo" e afirmou a pessoas próximas que a relação com o governo Lula havia implodido.

Ele relatou ter ficado incomodado com notícias sobre uma suposta contrapartida pedida por ele para aprovar Messias: a presidência do Banco do Brasil, da Caixa, da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) e da ANA (Agência Nacional de Águas).

Alcolumbre disse a aliados que inclusive considerava parte dos cargos de segundo escalão e que jamais tinha tratado dessas indicações como uma espécie de compensação pelo fato de Lula não ter escolhido Pacheco.

O amapaense também declarou a pessoas próximas que a demora do governo em enviar a documentação necessária para a sabatina de Messias era uma afronta ao Senado e uma tentativa de manipular uma competência que é do presidente da Casa: marcar a votação da indicação de autoridades.

Alcolumbre chegou a agendar a sabatina de Messias para 10 de dezembro e a dizer nos bastidores que, sem a papelada necessária, imprimiria a página do DOU (Diário Oficial da União) com a indicação de Messias para entregar aos senadores da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça).

No início da sessão do plenário desta quarta, o relator da indicação de Messias, Weverton Rocha (PDT-MA), provocou Alcolumbre sobre os rumores de que ele estaria trabalhando contra a aprovação. O presidente do Senado não respondeu e lembrou da demora do governo em enviar a indicação à Casa.

"Se eu for adentrar no mérito desse processo, desde 10 de novembro do ano passado [a indicação ocorreu dia 20], eu vou tomar muito tempo de vossas excelências e, sem dúvida nenhuma, vou ter que fazer algumas ponderações em relação a tudo que foi veiculado nos últimos dias e nos últimos meses em relação a esta indicação", disse Alcolumbre.

APROXIMAÇÃO COM A OPOSIÇÃO

Duas pessoas próximas a Alcolumbre dizem que o senador também tentou ganhar pontos com a oposição, que o pressiona pelo impeachment de ministros do Supremo e vai tentar derrotá-lo no começo do próximo ano para eleger um presidente do Senado tipicamente bolsonarista.

O cenário continuaria desfavorável a um apoio à reeleição de Alcolumbre para o cargo em caso de vitória bolsonarista para a Presidência da República, mas a votação foi considerada um primeiro gesto de aproximação. Outro ocorrerá nesta quinta (30), quando o Congresso votará o projeto de lei que reduz a pena de Bolsonaro e de outros condenados pelos ataques golpistas de 8 de janeiro.

Alcolumbre ainda afirmou à oposição que, se Messias fosse derrotado, a escolha do novo ministro do STF caberia ao presidente eleito em outubro.

Lula terá como principal adversário à sua reeleição o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que já figura empatado com ele nas pesquisas de intenção de voto. Além disso, há expectativa na classe política de que a direita amplie sua força no Senado nas eleições de outubro.

No ano passado, Alcolumbre chegou a dizer que a sabatina de Messias poderia ficar para depois das eleições de 2026 ?deixando também subentendido que a indicação deveria ser trocada, caso Lula saísse derrotado.