Conselho de Ética vota para suspender deputados Van Hattem e Marcos Pollon por motim contra Motta
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O Conselho de Ética da Câmara aprovou nesta terça-feira (5) a suspensão por 60 dias do deputado Marcos Pollon (PL-MS), que ofendeu o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), e ocupou a Mesa Diretora em agosto de 2025. A mesma medida foi tomada contra Marcel van Hattem (Novo-RS). O caso de Zé Trovão (PL-SC) também é analisado.
O parecer do deputado Moses Rodrigues (União Brasil-CE) prevê a suspensão dos três pelo período de dois meses. Ele apresentou um voto conjunto, mas os casos são analisados de forma individual. Os parlamentares punidos ainda podem apresentar recurso à CCJ (Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania) e, depois, ao plenário.
No último discurso antes dos votos, Zé Trovão e Van Hattem afirmaram que repetiriam a ocupação, enquanto Pollon disse que a sanção seria uma "medalha" a eles. "Se for preciso tomar a Mesa novamente em algum momento da história para defender quem me elegeu assim o farei", declarou o deputado de Santa Catarina. "Se for preciso, faremos quantas vezes for necessário", completou o gaúcho.
A análise no Conselho de Ética começou por volta de 13h30 e durou cerca de nove horas. Houve discussão entre deputados durante a sessão, e a direita tentou adiar a votação. O líder da oposição na Câmara, Cabo Gilberto Silva (PL-PB), disse por duas vezes ao presidente do Conselho de Ética, Fábio Schiochet (União Brasil-SC), que a decisão não poderia ser feita com possibilidade de voto à distância.
A sessão também foi marcada por críticas a Motta, em especial após o encerramento das discussões no plenário enquanto ocorria a análise no colegiado. O gesto foi interpretado pela oposição como uma tentativa de pressionar pela votação no Conselho de Ética.
O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), afirmou que o processo contra os bolsonaristas só foi adiante por "desejo" e "revanchismo" do presidente da Casa e pediu que ele pare de agir "com o fígado".
"O senhor quer ficar exposto a esse nível com o plenário da Casa? Porque nós vamos até às últimas consequências. Um telefonema de vossa excelência e estaria tudo resolvido, não precisaríamos ter esse desgaste todo. Mas, se isso satisfaz o ego de vossa excelência, eu quero, como líder do PL, lamentar porque não é o Hugo Motta que eu conheço", afirmou.
Marcos Pollon foi alvo de duas representações no conselho. A primeira foi por causa de um discurso numa manifestação em Mato Grosso do Sul, em agosto, quando xingou Motta e se referiu ao presidente da Câmara como "baixinho de 1,60m". O bolsonarista reclamava da demora do chefe da Casa em pautar a anistia aos condenados por tentativa de golpe.
Pouco depois, ele participou do motim que ocupou a Mesa Diretora da Câmara, inviabilizando por quase dois dias as votações. Na ocasião, deputados de direita permaneceram no plenário impedindo que Motta sentasse na cadeira da presidência. Pollon ficou no lugar do chefe da Casa, junto com van Hattem e Zé Trovão.
Na sessão desta terça, o deputado de Mato Grosso do Sul disse que a ocupação foi "um ato de desespero" após Motta ter, segundo ele, descumprido acordos com a oposição para pautar a anistia. O congressista também disse que foi prometido aos envolvidos no motim que "não haveria perseguição e retaliação" após o episódio.
Pollon declarou ainda que a representação contra ele foi motivada por suas falas com críticas ao presidente da Câmara e pediu ao conselho que não puna os outros dois colegas. "Recomendo aos senhores que, se suspensos formos, imprimam em papel cartão essa decisão e coloquem na sala de suas casas, para que todos que ali passem, saibam que vocês se levantaram para lutar", disse.
A Corregedoria Parlamentar recomendou a suspensão do mandato dos deputados por 30 dias. Na ocasião, Motta chegou a ameaçou uma suspensão por seis meses.
A representação foi apresentada pelo deputado Gilberto Abramo (Republicanos-SP), correligionário do presidente da Câmara. Já a denúncia por causa da manifestação foi feita pelos deputados Lindbergh Farias (PT-RJ), Pedro Campos (PSB-PE) e Talíria Petrone (PSOL-RJ).
No Conselho de Ética, Zé Trovão chorou ao discursar, dizendo que os funcionários do seu gabinete passarão dois meses sem receber salários. Em seguida, fez ataques ao STF (Supremo Tribunal Federal) e afirmou que os colegas estavam cometendo uma injustiça.
A defesa de Marcel van Hattem, feita pelo advogado e pré-candidato a deputado federal Jeffrey Chiquini (Novo), negou que o deputado tenha sentado na cadeira de Motta ou impedido o início da sessão.
Já o deputado afirmou que o processo é uma tentativa de silenciar a oposição e comparou o caso com o julgamento dos condenados pelos atos golpistas de 8 de Janeiro. Pré-candidato ao Senado, ele reforçou que, caso eleito para a Casa, trabalhará para aprovar o impeachment de ministros do STF.
RELEMBRE O EPISÓDIO
O motim bolsonarista em reação à prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) inviabilizou o funcionamento do plenário da Casa por 30 horas. Na ocasião, parlamentares da oposição permaneceram nas mesas dos plenários da Câmara e Senado, impedindo a realização de sessões.
Em esquema de revezamento, eles passaram a madrugada no local, que foi isolado pela Polícia Legislativa, com permissão de entrada apenas de parlamentares. Com o motim, os bolsonaristas buscaram pressionar a cúpula do Congresso a pautar a anistia ao Bolsonaro e aos participantes do 8 de Janeiro, além do impeachment do ministro do STF Alexandre de Moraes.
Em dezembro, eles conseguiram uma vitória parcial com a aprovação do projeto de dosimetria. A proposta substituiu a anistia e promoveu a redução de penas dos condenados. O presidente Lula (PT) vetou o projeto, mas o Congresso derrubou o veto na última semana.