Flávio Bolsonaro procura Fachin, fala em respeito aos Poderes e cobra isenção do STF na eleição

Por ISADORA ALBERNAZ E CAROLINA LINHARES

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Pré-candidato à Presidência, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se reuniu na manhã desta quarta-feira (13) com o presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), ministro Edson Fachin, com a justificativa de se comprometer com o respeito à corte durante a campanha e, por outro lado, cobrar dos magistrados isenção e imparcialidade em relação à disputa eleitoral.

Ao deixar o STF, Flávio disse a jornalistas que a visita foi institucional. "Ainda não havia tido a oportunidade de conversar pessoalmente com ele esses anos inteiros. E eu, como pré-candidato à Presidência da República, fiz questão de vir aqui, me apresentar e trocar um pouquinho de ideia com ele sobre o que eu penso de país."

Integrantes da campanha bolsonarista dizem ter a preocupação de que sejam aplicadas as mesmas regras a todos os concorrentes e que não haja censura.

Em 2022, quando disputou a reeleição, o então presidente Jair Bolsonaro fez uma série de ataques com mentiras sobre o sistema eleitoral. Na ocasião, aliados dele criticaram a derrubada pela Justiça Eleitoral de conteúdos da direita nas redes, o que, para eles, teria causado desequilíbrio.

Um pleito de Flávio levado a Fachin é que o arbítrio de conflitos da eleição seja feito no âmbito do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), presidido pelo ministro Kassio Nunes Marques, indicado por Bolsonaro, e não no STF, onde o bolsonarismo vem acumulando derrotas.

Em abril, em um discurso no plenário do Senado, Flávio afirmou que o ministro Alexandre de Moraes iria desequilibrar a eleição a partir de sua atuação no Supremo. "Está muito claro qual é a estratégia. Já que agora Alexandre de Moraes não está mais no TSE, ele vai querer desequilibrar as eleições lá do Supremo. [...] Essa prática não dá para aceitar em outras eleições, agora em 2026", disse.

Ainda de acordo com aliados de Flávio, ele levou a Fachin a mensagem de que sua campanha vai respeitar o Judiciário, mas espera que a vontade popular seja respeitada, com o resultado do pleito refletindo uma disputa igualitária para os dois lados.

No encontro, o senador afirmou compreender a importância do STF e a necessidade de harmonia entre os Poderes. A intenção do presidenciável, dizem os aliados, é se colocar como uma ponte em relação à corte para estabelecer o diálogo e evitar mal-entendidos.

Um dia antes da visita, a oposição bolsonarista do Congresso reforçou a ofensiva contra o STF protocolando um novo pedido de impeachment de Moraes e uma nova PEC (proposta de emenda à Constituição) de anistia aos condenados por golpismo.

Como mostrou a Folha, porém, a estratégia de Flávio é, na contramão do histórico bolsonarista, tentar difundir uma imagem moderada, o que inclui comedimento nos ataques à corte, que devem ficar a cargo de outros aliados, parlamentares e candidatos do bolsonarismo.

O senador, inclusive, teria afirmado à Fachin que, caso seja eleito, qualquer proposta de reforma do Judiciário ouvirá a opinião dos atuais ministros do STF.

A jornalistas Flávio disse ter um "perfil centrado" e afirmou ter apresentado a Fachin como ele quer se comportar, caso seja eleito em outubro. "Quero paz para fazer o meu melhor, olhar para frente, olhar para os problemas do Brasil sem ficar se preocupando em amenizar qualquer tipo de atrito institucional que possa acontecer entre os Poderes."

O senador também negou ter tratado com o presidente do STF sobre a proposta aprovada pelo Congresso Nacional que pode reduzir a pena de seu pai, condenado pela corte a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado. O Supremo deve julgar ainda neste mês a constitucionalidade da chamada Lei da Dosimetria.

"Foi uma conversa bastante amistosa e fiquei com uma excelente impressão dele. Não tratei de assunto nenhum com relação a julgamentos que possam vir a acontecer aqui no Supremo", disse Flávio.

Segundo o senador, os dois conversaram sobre a importância de as instituições respeitarem "cada uma o seu espaço". O STF se tornou o principal alvo de críticas do bolsonarismo, que se articula para eleger uma bancada no Senado suficiente para aprovar o impeachment de ministros do tribunal em 2027.

O embate se concentra em Moraes, que além de relatar os casos referentes à trama golpista também comanda o inquérito das fake news, por meio do qual líderes do bolsonarismo e suas redes sociais foram enquadrados.

Questionado pela imprensa sobre a próxima presidência do Supremo, que será ocupada por Moraes, o senador disse estar aberto a conversas e não ter dificuldade de dialogar com a corte, mencionando que já se reuniu com o ministro.

"Nunca tive problema de conversar. O que me deixa indignado são os excessos que, infelizmente, ele vem cometendo. O presidente Fachin fica até setembro de 2027. Espero que, daqui para lá, o ministro Alexandre de Moraes volte a ser uma pessoa que não usa a sua caneta para promover perseguição política, como ele fez com o presidente Bolsonaro", declarou.

Relator da trama golpista, Moraes suspendeu no último sábado (9) a Lei da Dosimetria até o julgamento do plenário da corte sobre a constitucionalidade da medida.

O encontro entre Flávio e Fachin ocorreu na sede do tribunal, em Brasília, e durou cerca de 30 minutos. Segundo a agenda do presidente da corte, estava marcado para começar às 11h.