Empresa que repassou dinheiro a filme de Bolsonaro é dona de fundos da rede do Master

Por LUCAS MARCHESINI

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A Entre Investimentos, empresa que teria sido utilizada por Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), é cotista de sete fundos na rede do Banco Master. Ao todo, esses fundos têm R$ 2,9 bilhões em ativos.

Dois desses fundos são cotistas diretos do Hans II, central na teia fraudulenta do Master. As informações estão em documentos da CVM (Comissão de Valores Mobiliários).

Conforme investigação da Polícia Federal, a Entre Investimentos e Participações funcionava como um braço operacional de Vorcaro, ajudando no repasse de recursos definidos pelo banqueiro.

Relatórios do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), referentes a transações feitas de 2022 a 2025, listam movimentações de recursos pela Entre com suspeitas de irregularidades.

Em nota, o grupo Entre afirmou que realiza suas operações em conformidade com as normas do setor financeiro. "A empresa reforça seu compromisso com a integridade, a transparência e o cumprimento da legislação vigente, permanecendo à disposição das autoridades competentes sempre que necessário."

A defesa de Vorcaro disse que não se manifestaria a respeito.

Os documentos do Coaf contêm comunicações feitas por bancos e outras instituições financeiras, obrigatórias por lei quando há montantes elevados ou indícios de irregularidades. O Coaf é um órgão federal responsável por prevenção e detecção de lavagem de dinheiro.

Um desses comunicados, descrito em relatório da Coaf, informa que a Entre tinha um capital social de R$ 17,4 milhões e faturamento de R$ 345,5 milhões. O comunicado aponta, então, "pontos de atenção".

Um desses pontos são "recebimentos expressivos" provenientes de fundos. Outro, a destinação de valores elevados a instituição financeira e distribuidora de combustíveis suspeitas de operações relacionadas à facção criminosa PCC, investigadas na Operação Carbono Oculto.

Houve ainda um envio "relevante" de recursos para casas lotéricas, no total de R$ 2,8 milhões, conforme o relatório do Coaf. A maneira como isso foi feito indica o uso de conta como um canal de passagem, segundo o documento.

As transações incluem a Super Empreendimentos e Participações, outro braço operacional de Vorcaro.

Já as operações com um fundo chamado Gold Style, gerido pela Reag, buscaram ocultar beneficiários e partes envolvidas, conforme comunicado ao Coaf. O fundo "concentrou transações de valores envolvidos" a empresas como a Entre Investimentos, segundo o relatório, que cita débitos de R$ 20 milhões.

A Reag foi decisiva na ciranda financeira organizada pelo Master para fraudes em carteiras de crédito, segundo a PF, e é investigada na Carbono Oculto. A unidade de administração foi liquidada pelo Banco Central em 15 de janeiro, menos de dois meses depois da liquidação do Master.

Entre e Master aparecem como titulares em um comunicado ao Coaf sobre transferências (de imóveis, cotas ou participações societárias) no valor de R$ 203,8 milhões, em agosto de 2024, mais um indicativo da relação entre as duas empresas.

O grupo Entre pertence a Antônio Carlos Freixo Junior, conhecido como Mineiro. Próximo de Vorcaro, Mineiro foi alvo de busca e apreensão em janeiro na segunda fase da Operação Compliance Zero, que investiga as fraudes no Master.

A Entrepay Instituição de Pagamento teve sua liquidação decretada em 27 de março após um efeito dominó iniciado com a liquidação do Master, em novembro passado.

A empresa também mantinha um contrato de exclusividade com o Banco do Nordeste para o fornecimento de máquinas de cartão para os beneficiários do microcrédito produtivo da instituição financeira.

O contrato, iniciado em 2021, foi encerrado em março, depois que a Entre começou a atrasar o pagamento aos empresários.

Procurado, o Banco do Nordeste disse que acompanha, com prioridade e senso de responsabilidade institucional, os desdobramentos relacionados à Entrepay e os impactos reportados por clientes que realizaram transações com a empresa.

O banco disse que intensificou o contato com as bandeiras de cartão de crédito "com o objetivo de viabilizar soluções que assegurem a correta identificação dos valores devidos e a sua restituição integral aos clientes impactados". O banco acrescentou estar atuando de forma diligente, proativa e contínua na defesa dos clientes, levantando os casos reportados e adotando todas as medidas cabíveis.

A Entre tem ligações também com o Credcesta, um cartão de crédito consignado que surgiu a partir da privatização da Ebal, a estatal baiana responsável pela rede de supermercados Cesta do Povo, que operava com um cartão de compras.

A Entrepay foi sócia da Consiglog, umas das empresas que formam a rede do Credcesta. Além disso, um dos fundos dos quais a Entre é cotista, o Gardenia, é sócio via outro fundo, o Diamond, da PKL One. Ela é a detentora do Credcesta.