Empresária diz à PF que apresentou Careca do INSS a Lulinha, mas nega repasse de recursos

Por JOSÉ MARQUES

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Em depoimento à Polícia Federal nesta quinta-feira (20), a empresária Roberta Luchsinger disse que apresentou seu amigo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, para o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como o Careca do INSS, antes da deflagração da Operação Sem Desconto.

Ela disse que, depois da operação e da prisão do Careca, "teve receio de que esse contato pudesse ser explorado politicamente, como de fato vem ocorrendo".

Roberta é alvo das investigações da Sem Desconto, que apura suspeitas de desvios em descontos do INSS, pelos negócios que manteve com o Careca.

Lulinha é filho do presidente Lula (PT), seu sigilo chegou a ser quebrado, e a polícia já levantou suspeitas de que ele tenha sido sócio oculto do lobista. A defesa de Lulinha nega qualquer irregularidade.

Roberta reafirmou à PF o que a sua defesa vem dizendo desde o início da apuração: que efetivamente prestou serviços ao lobista relacionados à regulação do mercado de canabidiol no Brasil e que o reconhecia como um empresário do ramo farmacêutico, sobre o qual não existiam suspeitas de irregularidades.

Segundo Roberta, ela não sabia a origem de recursos que financiavam a empresa de cannabis medicinal do Careca. Ela disse acreditar que se tratavam de "recursos próprios de Antônio Camilo Antunes, oriundos de sua extensa e reconhecida atuação do mercado farmacêutico".

A empresária prestou depoimento às autoridades por vídeo, de São Paulo. Ela está monitorada com tornozeleira eletrônica desde dezembro do ano passado.

No depoimento, Roberta admitiu ser amiga de Lulinha e da esposa dele e afirmou que o filho do presidente não prestou qualquer serviço relacionado à regulação de canabidiol e nem foi remunerado por isso, direta ou indiretamente.

Também afirmou que não repassou qualquer valor a Lulinha relacionado a essa contratação.

Ela foi questionada pela PF sobre uma viagem que o filho de Lula fez a Portugal com o Careca. A empresária disse que não estava na viagem, mas soube que se tratava "de uma viagem de prospecção e de sondagem de negócios, algo fora do escopo de sua prestação de serviços".

"Fábio [Luís] foi convidado por sua curiosidade relativa ao assunto, oriunda, inclusive, em função da

utilização de medicamento à base de canabidiol por familiares", afirmou a empresária.

Em nota após o depoimento, os advogados de Roberta, Bruno Salles e Marco Chies Martins, disseram que ela respondeu a todas as perguntas e que "tem sido alvo de verdadeira campanha difamatória".

"Sua trajetória foi eclipsada de maneira bastante misógina e preconceituosa, sendo reportada como herdeira, amiga, sócia, representante, socialite ou ainda, mais comum, e de maneira pejorativa, como 'lobista'", diz a nota.

Segundo eles, os esclarecimentos feitos à polícia "desvelam por completo a tese acusatória desenhada inicialmente e vazada seletivamente de forma sistemática".

"Esperamos que após o depoimento, com a conclusão das apurações, sejam as investigações arquivadas em relação a sua pessoa, ante a demonstração da absoluta inexistência de qualquer conduta ilícita."

Antonio Camilo, o Careca do INSS, é suspeito de ser o articulador de um esquema bilionário de fraudes e descontos indevidos em aposentadorias e pensões.

As suspeitas da Operação Sem Desconto miram um esquema que teria descontado cerca de R$ 6,3 bilhões dos beneficiários do INSS entre 2019 e 2024.

A fraude consiste em descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões.

O modelo de desconto associativo, que permite deduções diretas em aposentadorias mediante autorização dos beneficiários, tornou-se alvo de manipulação por entidades de fachada nos últimos anos.

Os inquéritos são relatados pelo ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal).