Flávio insiste que Trump trate CV e PCC como terroristas para tentar emparedar Lula na eleição

Por CAROLINA LINHARES E ISABELLA MENON

BRASÍLIA, DF, E WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pressionam para que o governo dos Estados Unidos classifique PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas como estratégia para emparedar o governo Lula (PT) em relação ao tema da segurança pública na campanha eleitoral.

Como a gestão petista é contra a equiparação das facções criminosas a organizações terroristas internacionais, esse debate obrigaria aliados de Lula a defenderem sua posição, o que seria explorado por bolsonaristas como se fosse uma proteção a criminosos, tema com potencial de desgaste nas eleições.

A avaliação é feita por pessoas próximas de Flávio, que fez nesta semana uma série de reuniões em Washington para levar o pedido a autoridades americanas.

O governo Lula avalia que a eventual designação do PCC e do CV como organizações terroristas pelos EUA deixaria empresas brasileiras e o sistema financeiro nacional expostos a medidas unilaterais do governo americano. Segundo aliados do petista, isso também poderia abrir brecha legal para intervenções dos EUA em território brasileiro.

A solicitação para que PCC e CV sejam tratados pelos EUA como terroristas foi levada por Flávio ao presidente dos EUA, Donald Trump, durante a reunião na Casa Branca na terça-feira (26). O tema foi reforçado pelo senador em encontros nesta quarta-feira (27) com outras autoridades americanas, como o secretário de Estado, Marco Rubio, e o vice-presidente JD Vance.

De acordo com interlocutores do pré-candidato do PL à Presidência, Trump afirmou que iria avaliar esse pleito, sem dar indicações de que iria ou não atendê-lo.

Segundo nota enviada pelo influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo, que acompanha as agendas de Flávio nos EUA, o senador reforçou ao secretário de Estado o pedido sobre as facções feito a Trump no dia anterior e "Rubio demonstrou preocupação com o cenário brasileiro e receptividade à proposta".

A avaliação de integrantes da pré-campanha de Flávio é a de que a pauta da segurança pública é positiva para o senador ao mesmo tempo em que representa um ponto fraco de Lula e, portanto, deve ser explorada.

Por isso, ainda segundo aliados de Flávio, a visita a Trump, para além do eventual ganho político e repercussão positiva nas redes sociais bolsonaristas, pode ajudá-lo mais se realmente resultar no cerco dos EUA às facções.

De imediato, a reunião com o presidente americano ajudou o senador a desviar o foco da crise em sua pré-candidatura após a revelação da relação próxima entre Flávio e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.

Depois do encontro com Trump, Flávio afirmou em entrevista a jornalistas que buscou mostrar ao presidente americano que era o oposto de Lula.

"Enquanto Lula vai de joelhos rastejando para implorar ao presidente Trump que não declare organizações criminosas como terroristas, eu faço o contrário", disse.

Questionado se a designação não abriria brecha para os EUA interferirem no Brasil, Flávio negou e voltou a criticar o governo Lula. "Não tem absolutamente nada de ameaça ao Brasil. Vários outros países fizeram isso."

No último dia 7, quando Lula foi recebido por Trump na Casa Branca, havia a expectativa de que esse tema pudesse ser tratado. Depois da reunião, porém, o petista afirmou que o assunto não foi abordado e que foi apresentada uma proposta de cooperação entre EUA e Brasil para combate ao crime organizado.

Da parte do governo Lula, a ideia é explorar o encontro entre Trump e Flávio para reforçar o discurso da soberania nacional, que já vinha sendo aplicado pelo Palácio do Planalto, mirando a eleição.

Petistas também pretendem usar como recurso contra Flávio a comparação entre a recepção feita por Trump a Lula, durante a visita realizada no início do mês, com a que foi feita aos integrantes da família Bolsonaro nesta terça.

A ideia é dar ênfase ao encontro com o presidente brasileiro, que teve elementos como tapete vermelho, fotos com aperto de mão e declarações positivas de Trump, frente a uma recepção mais fria a Flávio e Eduardo Bolsonaro.

Em foto publicada pelo senador, o presidente americano aparece sentado à mesa, em postura diferente do aperto de mãos publicado no dia da visita de Lula. Para aliados do petista, a imagem e a conversa só devem surtir efeito com o eleitorado mais fidelizado de Bolsonaro, sem grandes impactos para Lula.

Durante a reunião com Flávio, Trump chegou a fazer um elogio a Lula, por seu "dinamismo", segundo relato confirmado por Paulo Figueiredo, que participou da reunião.

Para auxiliares do Palácio do Planalto, com o encontro desta terça, Flávio também assume o risco de ser associado a possíveis retrocessos em negociações em curso feitas entre Lula e Trump. Flávio disse ter discutido com o presidente americano temas que já haviam sido tratados pelos dois governos na reunião oficial do início do mês, como as negociações em torno do tarifaço e o crime organizado.

Ainda segundo esses interlocutores, a tendência é que governistas associem a Flávio qualquer recuo por parte de Trump no diálogo com o Brasil, de modo a colocá-lo como alguém que atuou de forma contrária aos interesses brasileiros.

Dessa forma, Lula sairia à frente na narrativa de defesa da soberania nacional. Nos últimos meses, o presidente brasileiro vem correlacionando a família Bolsonaro à subserviência aos EUA.