Fadiga eleitoral desafia Lula, 80, terceiro governante há mais tempo no poder no Brasil

Por GUSTAVO ZEITEL

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A corridinha virou marca registrada da comunicação do presidente Lula (PT), 80. Em agendas oficiais, ele aperta o passo para ser flagrado pelas lentes de sua equipe, que logo posta a cena nas redes sociais. O petista também se deixa filmar quando faz exercícios, tática que tem sido usada para mostrar disposição e afastar as críticas à sua idade avançada.

Foi o que ocorreu, na semana passada, quando a primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, postou imagens do marido malhando sem camisa às 6h da manhã. "Feriadão nesse pique", dizia a legenda. Mas a questão etária é só parte do desafio. A longevidade de Lula reflete-se em uma extensa vida pública, o que agora provoca um fenômeno de fadiga de material, na avaliação de especialistas.

Lula é o terceiro governante que mais tempo permaneceu no poder, no Brasil. Até o fim de 2026, ele completará 12 anos na presidência, tempo equivalente a três mandatos. Considerando o Brasil Império, Lula perde para Dom Pedro 2º (49 anos) e Getúlio Vargas (18 anos). Aparecem depois do petista Dom Pedro 1º (10 anos) e Fernando Henrique Cardoso (8 anos).

Lula está no panorama político desde os anos 1980. Participou de sete das nove eleições presidenciais desde a redemocratização, em 1989. As exceções foram 2010 e 2014, quando emplacou Dilma Rousseff (PT) no Planalto; em 2018, não chegou a ter o nome nas urnas, porque estava preso e teve a candidatura barrada pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Em 2025, tornou-se o primeiro octogenário na Presidência da República. Já o PT governou o Brasil em 17 anos deste século 21. "O tempo por si só não é fator determinante para o desgaste, mas crises acumuladas pelo PT, como o mensalão e a Lava Jato, além do trabalho muito bem estruturado da oposição", diz Paulo Loiola, consultor de marketing eleitoral, especializado no campo progressista.

Loiola avalia que a esquerda tem tido dificuldade de ampliar a comunicação digital, mesmo com ideias bem recebidas pela sociedade, como defesa da soberania nacional e a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000.

No marketing, fadiga de material é uma expressão que designa o esgotamento da força de determinado partido ou figura política. Segundo Lucas Pimenta, também consultor de comunicação eleitoral, a fadiga de Lula relaciona-se, sobretudo, a uma visão anacrônica das relações de trabalho.

"Lula não se comunica com um novo trabalhador brasileiro. Ele tenta trazer medidas populistas, mas isso não se reflete nos números de aprovação do governo, porque está desconectado dos novos anseios da população", diz Pimenta.

Pesquisa Datafolha mostra que 38% avaliam o governo Lula negativamente, e 32%, positivamente. Ele é visto como o mais experiente pela maioria dos entrevistados, e o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 45, é visto como o mais moderno e inovador. Neste ano eleitoral, o petista anunciou um pacote de bondades, incluindo o Desenrola 2.0, programa de renegociação de dívidas, o Gás do Povo e o Luz do Povo, para ampliar a oferta de luz e gás.

Agora tenta elevar à marca de seu terceiro mandato a aprovação do fim da escala 6x1 no Congresso. A maioria da população aprova a medida, que beneficiaria 37 milhões de brasileiros, segundo o governo.

Contudo, o especialista avalia que Lula não deu respostas aos segmentos que valorizam a autonomia e o empreendedorismo. Segundo Pimenta, a ausência de novidade se reflete, antes de tudo, no discurso do presidente, que tenta, desde a campanha de 2022, reavivar a lembrança dos dois primeiros mandatos.

Em outra frente, a imagem do petista se desgasta com as gafes que se acumulam e denotam certa inadequação com os novos tempos. Muitas delas têm como alvo o público feminino, a maior parcela do eleitorado. Há dois anos, Lula disse, em um evento, que mulher com formação não depende do pai para comprar batom e calcinha.

Também em 2024 afirmou ser inacreditável que os casos de violência contra a mulher aumentem depois de jogos de futebol. Em seguida, emendou: "Se o cara é corinthiano, tudo bem". Pimenta identifica uma mudança arquetípica na imagem de Lula. Se nos dois primeiros mandatos notabilizou-se como pai dos pobres, agora tenta ser um herói, digladiando-se com o bolsonarismo. Segundo o especialista, a guerra ideológica pode cansar o eleitorado.

"O que marca o governo Lula 3 é uma guerra ideológica permanente. No lugar de se preocupar em criar marcas, ele se preocupa com a construção do arquétipo do herói", afirma Pimenta. "Nos primeiros mandatos, ele dialogava com o Congresso, que agora é visto como inimigo do povo pela esquerda."

Leonardo Belinelli, professor de ciência política da UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro), pondera que, se Lula está na vida pública há quatro décadas e tem a imagem desgastada, isso indica o sucesso de suas políticas de inclusão do subproletariado. Ele diz, porém, que a repetição de um mesmo discurso vira uma armadilha com o tempo.

"O mundo do trabalho mudou muito, hoje tem influenciador, home office e padrões de consumo que não existiam antes. O jovem não quer só picanha e cervejinha, ele quer um videogame que custa R$ 5.000. E não basta somente fazer universidade, a concorrência é alta para conseguir um bom emprego"

O cientista político analisa a fadiga de material do petista a partir da alternância de poder, fundamento da democracia. Na visão dele, o cansaço é uma tônica em toda a América Latina, com políticos que não conseguem se reeleger ou emplacar um sucessor.

"Isso tem a ver com um certo esgotamento de um ciclo com políticos genericamente chamados de populistas à esquerda", diz, acrescentando que alternância de poder não afere a qualidade da democracia. Uma sequência de impeachments, como aconteceu no Peru, provaria o contrário.

Para Belinelli, a longevidade política de Lula se aproxima e se distancia daquela de Vargas. Para ficar 18 anos no poder, Vargas instituiu uma ditadura no país, o Estado Novo, de 1937 a 1945. O petista sempre foi eleito democraticamente. Ao mesmo tempo, as duas figuras políticas são longevas, diz o professor, porque ampliaram a cidadania para as classes baixas sem confrontar a burguesia.

Em outubro, Lula enfrentará nas urnas um candidato que tem quase metade da sua idade. De acordo com o cientista político, não seria sagaz o senador atacar a idade do presidente. "Flávio não é exatamente jovem, ele não é Renan Santos, e está associado à imagem do pai. Pelo que estamos vendo, será uma eleição de lulistas contra não lulistas", afirma.