Igreja Adventista reforça neutralidade política em meio a avanço bolsonarista

Por ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD) divulgou um documento reforçando uma orientação para que seus líderes não se envolvam em "qualquer atividade político-partidária".

"O princípio da separação entre Igreja e Estado", segundo esta que é uma das maiores organizações religiosas do país, é "o que leva cada uma dessas entidades a cumprir suas respectivas funções sem interferir nas atividades da outra".

A necessidade de reiterar essa neutralidade política revela, por tabela, como o tema vem se infiltrando nos templos adventistas. Não haveria por que, afinal, repetir uma diretriz com tanta ênfase se ela não estivesse sendo colocada à prova.

O movimento, segundo Jorge Rampogna, diretor de comunicação da igreja na América do Sul, se dá por dois motivos: a proximidade das eleições, "uma oportunidade importante para reafirmar nossa posição apartidária", e lembrar fiéis e líderes de que "é preciso separar a atividade partidária, que tem seu papel na sociedade, das atividades religiosas da igreja, que tem outros propósitos".

Adventistas até veem a política como meio legítimo "para defender valores cristãos", mas quem quiser fazê-lo não contará com apoio institucional, diz Rampogna. Na prática, pastores, obreiros e funcionários que se candidatarem devem se desvincular da função, o que também vale para quem atuar em assessorias ou propaganda política. Usar recursos como o dízimo para financiar a aventura eleitoral é outra vedação.

Recomenda-se que adventistas "sejam muito prudentes" com o uso de redes sociais para discutir política. "Há outros temas de relevância espiritual e missionária que merecem atenção maior por parte dos que compreendem seu papel como multiplicadores do evangelho."

Ao contrário de outras igrejas, a IASD insiste "nesse discurso de distanciamento da política", um tanto desconfiada nesse quesito, diz o antropólogo Raphael Khalil, que cresceu em lar de praticantes dessa fé. "Ainda mais porque eles acreditam que, no fim dos tempos, os governos vão se unir e perseguir os adventistas proibindo de não trabalhar no sábado."

A IASD surge nos Estados Unidos do século 19 e é conhecida por tratar o sábado, sétimo dia da semana, como sagrado ?um dia que deve ser dedicado a atividades religiosas e descanso, evitando trabalho, compras e outras atividades seculares. Daí atritos judiciais envolvendo escala de trabalho adaptada e o direito a prestar vestibular e concurso público em data alternativa.

A relação com a saúde é um pilar fundamental da denominação, baseada na crença de que o corpo é o "santuário do Espírito Santo". A igreja valoriza a dieta vegetariana e pede abstinência de álcool e tabaco. Também desencoraja o consumo de café e outros estimulantes.

A Igreja Adventista mantém uma extensa rede de escolas e hospitais. Calcula ter no Brasil cerca de 20 mil congregações e 1,8 milhão de membros ?a maior concentração de adventistas no mundo.

Embora essa igreja seja normalmente classificada por pesquisadores como evangélica, e ela própria se ver como herdeira do protestantismo, essa identidade nem sempre é aceita no segmento, por discordâncias doutrinárias que envolvem a observância do sábado e certas interpretações proféticas.

Gera menos divergência constatar que, espelhando a maioria evangélica, muitos adventistas embarcaram no bolsonarismo, ainda que oficialmente a igreja desaconselhe demonstrações públicas de afeto político.

Khalil, que é coautor de "Crentes - Pequeno Manual sobre um Grande Fenômeno", lembra da primeira vez em que ouviu falar de política na igreja. Ele era adolescente, no começo dos anos 2010. "Na minha escola bíblica, uma professora falou assim: ?Olha, tem um cara que quer preservar os costumes cristãos, só que ele é tachado de fanático. O nome dele é Jair Bolsonaro."

Já na faculdade, escutou um pastor adventista ironizar PT e MST. Depois, em 2019, Hamilton Mourão, então vice-presidente de Bolsonaro, deu uma aula magna no Centro Universitário Adventista de São Paulo.

Quadros da igreja, alguns com espaço na Rede Novo Tempo, o canal oficial da igreja, já vocalizaram publicamente seu apreço pelo campo conservador. O apresentador Leandro Quadros é um exemplo: anos atrás, viralizou um vídeo em que ele descreve Bolsonaro como um "camarada sério" que "fala a verdade", embora tenha ressalvado que, em alguns aspectos, o ex-presidente "não bate bem da cabeça".

Editor da adventista Casa Publicadora Brasileira, Michelson Borges costuma se opor ao que chama de "marxismo cultural". Virou referência para a ala bolsonarista da IASD. Em 2021, escreveu em seu blog o texto "Bolsominion, eu?". Nele diz: "Não concordar com algumas pautas da esquerda não me torna imediatamente defensor da direita", até "por entender que esquerda e direita são marionetes do mesmo poder diabólico".

Em 2023, a igreja afastou o pastor Célio Longo, por dizer "nem Hitler em toda a sua glória" e fazer uma saudação nazista após outro membro pedir engajamento num mutirão de Natal. Longo foi reincorporado à liderança depois.

Na base adventista, alheia à cúpula, está a cabeleireira Débora Rodrigues dos Santos, a "Débora do batom", presa após pichar com maquiagem "perdeu, mané" numa estátua do Supremo Tribunal Federal, durante os ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023. Ela frequentava um templo no interior paulista.

Rampogna sublinha que "pessoas vinculadas à instituição de alguma forma" são orientadas a adotar comportamento digital cauteloso sobre política, "especialmente em período de eleições". Diz também que a igreja nunca fez qualquer pesquisa que dimensione a preferência interna por algum político ou ideologia, mas "respeita a decisão de cada indivíduo em sua opção de voto em eleições e não interfere na livre escolha dos membros".

Enquanto sugere contenção partidária, a IASD removeu, no novo documento, instruções prévias sobre participação de seus seguidores em manifestações públicas, com a promessa de tratar do assunto em textos futuros. A falta de clareza sobre os limites dessa atuação gerou confusão na membresia.

A igreja destacou uma pesquisa do Pew Research Center com 6.200 adultos latino-americanos, que revelou como em países da região, Brasil incluso, a maioria considera relevante ter um presidente que defenda pessoas com suas crenças religiosas. O sentimento é particularmente forte entre evangélicos.