UFJF pede desculpas por uso de corpos de pacientes do Hospital Colônia de Barbacena em aulas de anatomia

Universidade reconhece utilização de cadáveres entre as décadas de 1960 e 1980 e anuncia medidas de reparação simbólica no Dia Nacional da Luta Antimanicomial.

Por Redação

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A Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) divulgou nesta segunda-feira (18), Dia Nacional da Luta Antimanicomial, uma carta pública em que pede desculpas pelo uso de corpos de pacientes do Hospital Colônia de Barbacena em atividades acadêmicas de anatomia entre as décadas de 1960 e 1980.

Segundo registros internos do Instituto de Ciências Biológicas (ICB), a universidade recebeu 169 corpos vindos do Hospital Colônia entre 1962 e 1971 para utilização didática nos cursos da área da saúde. A prática ocorreu em um período marcado por graves violações de direitos humanos em instituições psiquiátricas brasileiras.

Na carta assinada pela reitora Girlene Alves e pelo vice-reitor Telmo Ronzani, a UFJF reconhece os impactos históricos da prática e afirma assumir compromisso com ações de reparação simbólica.

“Em respeito ao direito à verdade, à justiça e à memória, a Universidade Federal de Juiz de Fora pede desculpas à sociedade brasileira por essa prática, que aviltou os corpos e a dignidade das pessoas falecidas no Hospital Colônia de Barbacena”, diz o documento.

O Hospital Colônia, inaugurado em 1903 em Barbacena, ficou conhecido nacionalmente após denúncias de violações sistemáticas de direitos humanos. Estima-se que cerca de 60 mil pessoas tenham morrido na instituição ao longo do século XX. O caso foi retratado no livro Holocausto Brasileiro, da jornalista Daniela Arbex.

De acordo com a obra, ao menos 1.853 corpos de internos foram comercializados para instituições de ensino da área da saúde. Movimentos sociais da luta antimanicomial afirmam que pelo menos 15 instituições de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo receberam cadáveres de pacientes do hospital para fins de ensino e pesquisa.

A mobilização é liderada pelo Fórum Mineiro de Saúde Mental, pela Frente Mineira Drogas e Direitos Humanos e pela Associação de Usuários dos Serviços de Saúde Mental de Minas Gerais (Asussam), com acompanhamento da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão, do Ministério Público Federal (MPF).

Segundo a UFJF, a universidade iniciou investigações internas após tomar conhecimento da iniciativa encabeçada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que também publicou carta de desculpas sobre o tema em abril deste ano.

Entre as medidas anunciadas pela UFJF estão campanhas de conscientização sobre saúde mental e direitos humanos, realização de eventos sobre o tema, incentivo à criação de um memorial, ampliação do debate nos cursos da área da saúde e desenvolvimento de pesquisas documentais sobre a relação entre a universidade e o Hospital Colônia.

O vice-reitor Telmo Ronzani afirmou que a publicação da carta representa um marco simbólico e reforça o compromisso da universidade com uma formação ética na área da saúde.

“Esperamos contribuir para diminuir o estigma social associado às pessoas com sofrimento mental”, afirmou.

A psiquiatra e psicóloga Miriam Abou-Yd, integrante do Fórum Mineiro de Saúde Mental, classificou o pedido de desculpas como um movimento inédito no país.

“São corpos de pessoas tratados como mero objeto em nome da ciência. Essas pessoas foram encarceradas e condenadas ao abandono”, declarou.

O procurador da República Angelo Giardini também destacou a importância da iniciativa. Segundo ele, ações de memória e reparação são fundamentais para evitar que violações semelhantes se repitam no futuro.

A UFJF destacou ainda que, há cerca de 20 anos, deixou de receber corpos de pessoas classificadas como indigentes pela Polícia Civil. Desde 2010, a universidade aceita apenas doações voluntárias formalizadas em vida, por meio do programa “Sempre Vivo”, criado em 2013 pelo Instituto de Ciências Biológicas.

A coordenadora do programa, professora Alice Resende, afirmou que a iniciativa segue padrões éticos adotados internacionalmente e ressaltou a importância da doação voluntária para a formação de profissionais da saúde.

“É um gesto muito nobre e de valorização da vida”, afirmou a docente.

Na carta pública, a UFJF reafirma ainda compromisso com a Reforma Psiquiátrica, com a luta antimanicomial e com políticas de saúde mental voltadas ao cuidado em liberdade, à dignidade humana e ao fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS). Leia na íntegra