(Roteiro para um curta-metragem, todo ambientado em um quarto de hospital)
Por mais de uma hora estive tentando dar in?cio a cr?nica deste m?s abordando um tema nada original nos dias atuais: a avalanche de esc?ndalos pol?ticos, a deteriora??o da imagem do Congresso, a rela??o surpreendente dos corruptos emergentes e os corruptos de ontem pregando a moralidade hoje...
Enfim, essas coisas que v?m embrulhando o est?mago de todos. Foi quando percebi que nada acrescentaria e que dificilmente conseguiria descobrir pelo menos um adjetivo novo, diferente dos que todos j? usaram para classificar todo esse imbr?glio ou conseguisse um enfoque diferente ao panorama. Desisti. E optei pela publica??o de um texto diferente ao que os leitores est?o acostumados, em forma de roteiro cinematogr?fico, ao qual me debrucei nos ?ltimos dias, sobre um argumento do ator Andr? Mattos. Ele pretende produzir e dirigir o trabalho numa brecha entre os seus trabalhos na TV.
O que segue ? uma hist?ria sobre um tema atual - a eutan?sia - e espero que sirva para distrair as cabe?as, por um momento, do repetitivo notici?rio pol?tico e de viol?ncia geral.
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CENA 1 C?mera posicionada na cabeceira de uma cama conduzida por um corredor de hospital por uma enfermeira mostra pessoas dando-lhe passagem, lumin?rias e portas que v?o se sucedendo at? parar diante do elevador. A imagem subjetiva agora focaliza o letreiro de numera??o dos andares descendo at? se abrirem as portas. Para melhor posicionar a cama dentro do elevador, ? necess?rio uma manobra at? que finalmente inicia a subida, com outras pessoas ao redor. A tela escurece lentamente. (Os fades, escurecer e clarear, que marcam o fim e o in?cio de cada quadro, indicam as p?lpebras do paciente se entreabrindo ou se fechando). |
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CENA 2 Interior do quarto. As imagens clareiam pouco a pouco e surge a enfermeira, mascando chicletes, acertando o len?ol nos p?s da cama. Depois examina uma conex?o aqui, outra ali, entre diversos fios e tubos, dirigindo-se de um lado ao outro da cama. D?-se por satisfeita. Vai de mansinho at? a porta, saindo do quadro.Ouve-se a porta se fechando, ela retorna e senta na beira da cama. Pega o celular no bolso do uniforme. Disca uns 12 intermin?veis n?meros, aguarda um instante, e ? atendida: |
Enfermeira - Oi, amor, atende que sou eu. E ? a cobrar porque meu cart?o j? t? no fim (...) Onde voc? est?? (...) Seu safado, eu n?o pedi pra voc? n?o ir a?? (...) Isso a? ? um pagode de merda. S? tem piranha. (...) O que? E voc? acha que eu confio em voc?? (...) Voc? ? um bom sacana, isso ? que ?. (....)Voc? a? no pagode e eu aqui trabalhando (...) N?o, at? que hoje t? meio tranq?ilo. T? aqui com um que s? n?o morreu ainda, porque t? todo ligado em aparelhos, h? um m?s. (Encara o paciente e o examina com mais aten??o). E ele at? que ? um sujeito bem bonito, embora esteja todo rebentado por dentro. Acidente de carro. A mulher morreu e ele n?o demora muito. Coitado, t?o bonito (... ) Num ri, n?o, porque se voc? se acha o homem mais bonito do mundo... ? ruim, hein! Num tem s? voc? n?o. E vivos! N?o ? como esse aqui n?o! (Acha uma gra?a tremenda da piada) T? bom, vou desligar, mas antes abre o teu olho nesse pagode de merda. Ta me ouvindo, seu sacana. (...) Um beijo bem gostoso.
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CENA 3 Entra no quadro o filho de 21 anos e se posta diante do pai, fitando-o por um longo tempo. A enfermeira cruza um lado ao outro, e interrompe um gesto para observar o paciente e o filho. |
Enfermeira - Voc? se parece com ele.
Filho - Em tudo...
Enfermeira - Bem eu s? posso falar do que vejo... Eu quis dizer
fisicamente.
Filho - Eu sei, ? que... N?o ? f?cil explicar isso. Ele ? uma parte de mim
que est? indo embora tamb?m.
Enfermeira - Que bonito isso que o senhor falou.
Filho - Eu n?o posso mais ficar apenas te contemplando qual uma pessoa
contempla uma... uma est?tua... ou uma planta. N?o tem sentido nem pra voc?,
nem pra n?s. Ainda que voc? n?o esteja sentindo nada, nenhum tipo de dor,
agonia, sofrimento... Ainda assim, voc? j? n?o ? mais... E n?o ser? nunca
mais... Que coisa mais sem sentido, meu Deus! Por que tem de ser assim? At?
quando?
Enfermeira - At? quando esses aparelhos estiverem funcionando...
Filho - O m?dico me disse que se desligar uma determinada tomada por um
minuto apenas... Que tomada ? esta?
Enfermeira (Aponta para a direita da cabeceira da
cama) - Esta aqui. E ?
isso mesmo... E em menos de um minuto... Mas o senhor n?o est? pensando...
Filho (Examina a tomada por um longo tempo e finalmente acena a cabe?a como
se falasse para si pr?prio) - Claro que n?o... Ou... Sei l?... N?o sei
mesmo...
Enfermeira - Isso passa pela cabe?a de todo mundo. H? anos acompanho
situa?es como esta, e todos fazem essa mesma pergunta: a troco de que
manter a m?quina funcionando? A resposta ?: enquanto houver um sinal de
vida, ele deve ser preservado. Essa ? a determina??o. E assim... Uns mais,
outros menos...
Filho - E n?o h? not?cia de quem j? tenha sa?do de uma situa??o dessas e
sobrevivido?
Enfermeira - Talvez. Mesmo assim, um em cem mil e olhe l?...
| Deixa no ar a conclus?o. Ele se prepara para ir embora, cabisbaixo, inconformado. A enfermeira o leva at? a porta, retorna e volta-se para o paciente: |
Enfermeira - Belo filho o senhor tem. Voc?s se parecem muito. Parab?ns.