Quando educar deixa de ser pressa e volta a ser (trans)formação

Por Jungley Torres

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O mês de janeiro sempre chega como um convite simbólico. O calendário muda, os discursos se renovam, as promessas reaparecem. Mas, para além do ritual da virada, 2026 nos encontra atravessados por um sentimento ambíguo: ao mesmo tempo em que avançamos tecnologicamente, parece que estamos cansados: cansados de correr, de produzir, de responder e de buscar, de forma excessiva, respostas e explicações. É justamente nesse cenário que a Filosofia da Educação se impõe não como um apetrecho intelectual, mas como uma necessidade vital. Em tempos de aceleração contínua, a filosofia reaparece como espaço de pausa, reflexão e questionamento do que muitas vezes é tomado como óbvio.

Vivemos um contexto em que a educação é progressivamente reduzida a desempenho, resultados mensuráveis, rankings, métricas e competências de caráter utilitarista. Aprende-se para “dar conta”, para “se adequar”, para “não ficar para trás”. Contudo, como advertia Hannah Arendt, quando a educação perde seu compromisso social com o mundo, ela deixa de formar sujeitos e passa a apenas treinar funções, esvaziando-se de seu sentido formativo. Em outros termos, educar não se reduz a transmitir conteúdo; desde a paideia grega, a educação deve ser compreendida como formação integral do ser humano: ética, política, estética e existencial.

Entrar em 2026 exige, portanto, recolocar perguntas fundamentais, que atravessam a história do pensamento educativo: para que educamos? Que tipo de humanidade estamos cultivando? O que significa formar alguém em um mundo marcado pela aceleração do tempo, pela fragmentação das experiências e pelo progressivo esvaziamento de sentido?

O problema é que nosso tempo parece ter perdido a paciência com o processo. Busca-se rapidez para responder a questões que são, por natureza, complexas e profundas. A educação é pressionada a oferecer soluções imediatas para problemas que exigem maturação histórica, ética e subjetiva. Nesse ponto, Paulo Freire permanece atual. Em um mundo que insiste em transformar pessoas em dados e estudantes em números, Freire nos aponta que ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho: educamo-nos em comunhão, mediados pelo mundo. Não há educação neutra, tampouco educação sem implicação ética.

Educar é sempre um ato político, seja para ampliar horizontes de liberdade, seja para reforçar formas sutis de domesticação.

O horizonte de 2026 nos coloca diante de um paradoxo evidente: nunca tivemos tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil atribuir sentido ao que sabemos. É aqui que a contribuição da hermenêutica filosófica, especialmente em Gadamer, torna-se decisiva. Para Gadamer, compreender não é aplicar um método técnico, mas participar de um diálogo vivo, no qual somos afetados pela linguagem, pela tradição e pelo outro. Aprender é, antes de tudo, reconhecer-se como ser histórico, situado e finito.

Educar, então, não é simplesmente ensinar respostas corretas, mas cultivar a escuta, o diálogo e a abertura à alteridade. Em tempos de discursos prontos, algoritmos que antecipam escolhas e bolhas que reforçam certezas, a educação precisa recuperar sua vocação originária de espaço do encontro, em que o diferente não é percebido como ameaça, mas como possibilidade de ampliação do horizonte comum.

Também não podemos ignorar o adoecimento que atravessa escolas e universidades. Professores exaustos, estudantes ansiosos, instituições submetidas à lógica permanente da produtividade. Viktor Frankl, ao refletir sobre a busca de sentido, já advertia: quando a vida perde o “para quê”, qualquer “como” se torna insuportável. Talvez um dos maiores desafios educacionais de 2026 seja justamente este: ajudar pessoas a reencontrarem sentido no aprender, no ensinar e no existir.

Educar, hoje, é também um gesto de resistência. Resistência à desumanização, à indiferença e ao cinismo pedagógico que naturaliza desigualdades e fracassos. Como lembrava Rubem Alves, ensinar é um ato de esperança: esperança de que o outro possa florescer, mesmo em terrenos áridos e adversos.

Que 2026 não seja apenas mais um ano letivo preenchido por calendários, metas e relatórios. Que seja um tempo de retomada do essencial: a educação como espaço de formação humana, de diálogo, de escuta e de construção coletiva de sentido.

Talvez não saibamos exatamente para onde o mundo caminha. Mas a filosofia nos ensina algo decisivo: quando o caminho é incerto, o mais importante é não perder a capacidade de perguntar. E educar, no fundo, sempre foi isso: ensinar a perguntar melhor, viver com mais consciência e habitar o mundo com mais humanidade.

Que este novo ano nos encontre menos apressados e mais atentos. Afinal, como lembrava Sócrates, uma vida sem reflexão não merece ser vivida, e uma educação sem reflexão corre o risco de perder sua própria alma.