Por que estamos tão cansados? O esgotamento do século XXI
Você já teve a sensação de chegar ao fim do dia sem conseguir explicar exatamente o que fez? Acordamos cedo; respondemos mensagens antes mesmo de sair da cama. O trabalho exige rapidez!
Você já teve a sensação de chegar ao fim do dia sem conseguir explicar exatamente o que fez? Acordamos cedo; respondemos mensagens antes mesmo de sair da cama. O trabalho exige rapidez! O celular vibra sem parar... Enquanto esperamos o café ficar pronto, já assistimos a vídeos, lemos manchetes, respondemos e-mails, curtimos fotografias e ouvimos áudios em velocidade acelerada. Quando a noite finalmente chega, o corpo pede descanso, mas a mente continua desperta. Então pegamos novamente o celular "só por cinco minutos". Quase sempre, esses cinco minutos se transformam em uma hora.
No dia seguinte, tudo começa outra vez.
Talvez seja por isso que tanta gente responda, quase automaticamente, à pergunta: “Como você está?” com uma única palavra: “Cansado”.
O curioso é que esse cansaço nem sempre resulta de esforço físico. Muitos passam o dia inteiro sentados diante de um computador e chegam em casa completamente esgotados. Outros permanecem conectados o tempo todo e, ainda assim, terminam o dia com a sensação de que nada realmente importante foi realizado. Há, inclusive, quem durma oito horas e desperte como se não tivesse descansado.
O que está acontecendo conosco?
A questão talvez não esteja apenas na quantidade de tarefas que acumulamos, mas na maneira como temos vivido.
Vivemos em uma cultura que transformou a ocupação permanente em sinônimo de valor. Existe uma competição silenciosa para descobrir quem trabalha mais, responde mais rápido, participa de mais reuniões, faz mais cursos, produz mais conteúdo e aproveita melhor cada minuto do dia. Descansar, muitas vezes, passou a provocar culpa.
Até o lazer foi capturado por essa lógica. Não basta viajar; é preciso registrar cada instante. Não basta ler um livro; é necessário publicar uma resenha. Não basta caminhar; convém contabilizar quilômetros, calorias e desempenho. Não basta contemplar o pôr do sol; antes é preciso fotografá-lo para que ele exista também nas redes sociais.
Vivemos cercados por uma exigência permanente que parece repetir, sem cessar: “Faça mais”.
Mas será que, fazendo tanto, estamos realmente vivendo mais?
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han oferece uma pista importante para compreender esse cenário. Segundo ele, o sujeito contemporâneo já não é explorado apenas pelos outros; aprende a explorar a si mesmo. Impõe metas cada vez mais altas, cobra produtividade constante e vive com a impressão de que nunca fez o suficiente. A pressão deixa de vir apenas de fora e passa a habitar o próprio indivíduo. Talvez essa seja uma das formas mais discretas, e mais profundas, de esgotamento.
Essa realidade aparece em cenas corriqueiras. À guisa de exemplo, pais brincam com os filhos enquanto respondem mensagens de trabalho. Casais dividem a mesma mesa, mas cada um permanece mergulhado em sua própria tela. Amigos se encontram e, antes mesmo da conversa começar, registram o momento para publicá-lo nas redes sociais.
Estamos fisicamente presentes, mas emocionalmente ausentes.
Realizamos muitas atividades ao mesmo tempo, porém raramente estamos inteiros em alguma delas.
Por isso, talvez não estejamos apenas cansados. Estamos saturados! Recebemos diariamente uma quantidade de informações que nenhuma geração anterior precisou administrar. Em poucos minutos, transitamos entre notícias de guerras, memes, crises econômicas, receitas culinárias, vídeos engraçados, tragédias, publicidade e opiniões sobre praticamente tudo. Nosso cérebro mal encontra intervalos para silenciar.
Há, porém, um tipo de descanso que nenhuma noite de sono consegue oferecer. É aquele que nasce quando conseguimos habitar verdadeiramente um instante. Uma conversa sem olhar o celular. Uma caminhada sem pressa. Um café apreciado lentamente. Um livro lido sem interrupções. O silêncio...
Podem parecer gestos simples, mas talvez sejam justamente eles que nos devolvam algo que estamos perdendo: a capacidade de estar presentes.
Quem sabe o descanso que tanto buscamos não comece justamente quando recuperarmos aquilo que nenhuma tecnologia pode oferecer por nós: a capacidade de viver cada momento com presença, atenção e sentido.