Dia dos Professores: quem ensinará o amanhã?
Entre a desvalorização do magistério e a necessária (re)existência docente
Há homenagens que confortam, mas há também aquelas que precisam incomodar. Neste 15 de outubro, Dia dos Professores, talvez a maneira mais significativa de reconhecer a docência seja ultrapassar os aplausos e perguntar: que futuro estamos construindo quando ensinar se torna uma profissão tão pouco valorizada? Afinal, de que adiantam flores, mensagens e discursos de gratidão quando, no cotidiano escolar, tantos educadores precisam lutar pelo direito de exercer dignamente seu trabalho?
Os números ajudam a compreender algumas das contradições desse cenário. Segundo o Censo da Educação Superior de 2024, divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o Brasil registrou aproximadamente 1,72 milhão de matrículas em cursos de licenciatura e 804 mil novos ingressantes. Destes, 81% ingressaram na modalidade de educação a distância. Os dados não autorizam afirmar que as licenciaturas estejam simplesmente desaparecendo, mas provocam questionamentos sobre as condições de formação, a experiência prática, a permanência estudantil e, sobretudo, a atratividade da carreira docente.
Entretanto, talvez o aspecto mais inquietante não esteja apenas na formação de novos professores, mas no modo como a sociedade enxerga aqueles que já estão nas escolas. A Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (TALIS 2024), realizada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), revelou que apenas 14% dos professores brasileiros pesquisados consideram que sua profissão é valorizada socialmente. Somente 22% manifestaram satisfação com seus salários. São números que evidenciam uma contradição difícil de ignorar: a sociedade reivindica uma educação de qualidade, mas nem sempre reconhece as condições humanas e materiais necessárias para torná-la possível.
Entre jornadas exaustivas, vínculos precários, cobranças excessivas, adoecimento e desafios cotidianos, espera-se que o professor permaneça motivado, criativo, acolhedor e incansável. Como se educar fosse uma vocação capaz de dispensar direitos. Como se o amor pela profissão pudesse substituir remuneração digna, condições adequadas de trabalho e políticas públicas consistentes. Precisamos, contudo, questionar essa romantização do magistério. O professor não é um herói destinado a suportar indefinidamente a precariedade. É um trabalhador, um intelectual e um sujeito histórico cuja dignidade não pode depender de sacrifícios permanentes.
Como professor da escola pública, especialmente na Educação de Jovens e Adultos, reconheço que ensinar ultrapassa a transmissão de conteúdos. É encontrar histórias, acolher diferenças, confrontar silêncios e construir possibilidades de compreensão. Há algo profundamente humano no encontro entre quem ensina e quem aprende: uma experiência que não se reduz a indicadores, plataformas digitais ou respostas automatizadas. Educar exige presença, escuta, responsabilidade e abertura ao outro.
Talvez por isso a pergunta mais urgente não seja simplesmente quantos professores teremos nas próximas décadas, mas que condições ofereceremos para que desejem ingressar e permanecer na profissão. Celebrar o magistério exige defender a escola pública, a valorização salarial, a formação continuada, a autonomia pedagógica e o respeito àqueles que sustentam diariamente o direito à educação.
Neste Dia dos Professores, portanto, meus parabéns a todas as professoras e a todos os professores que, mesmo diante de tantas adversidades, continuam a (re)existir. Resistir às condições que ameaçam a profissão e, simultaneamente, reinventar a própria existência pela educação. Que essa resistência, porém, não seja confundida com a obrigação de suportar tudo silenciosamente. E, antes que nos acostumemos a imaginar escolas sem professores, convém recordar que nenhuma sociedade constrói seu futuro desprezando aqueles que tornam possível às novas gerações compreendê-lo, questioná-lo e transformá-lo.
Feliz Dia dos Professores! Que as homenagens ultrapassem as palavras e se traduzam em reconhecimento, valorização e dignidade docente. Que nossa (re)existência permaneça alicerçada em um compromisso ético-humanístico inegociável: em favor da vida, da liberdade e da dignidade dos oprimidos, contra toda e qualquer forma de opressão. Afinal, educar é também um ato de responsabilidade com o outro, de resistência às injustiças e de esperanças à possibilidade de um mundo mais humano e justo.