Paulo César Paulo César 29/10/2011

Selton Mello conduz um espetáculo do início ao fim em O Palhaço 

É muito mais do que a premissa indicava. O Palhaço, escrito e dirigido por Selton Mello, é um verdadeiro espetáculo do início ao fim, trazendo reflexões sobre a vida e a felicidade. Ao lado do veterano, mas ainda competente, Paulo José, o ator/diretor leva o público dos risos às lágrimas, sem grande esforço. Um painel inebriante com grandes referências a grandes mestres do cinema como Fellini e Bergman.

O filme conta a história de Pangaré e Puro Sangue, palhaços interpretados por Benjamim (Selton Mello) e Valdemar (Paulo José), que são a principal atração do Circo Esperança. Apesar do grande dom de fazer o público sorrir, Benjamim não consegue encontrar a própria felicidade, então abandona a trupe em busca do autoconhecimento.

Mello assina o roteiro ao lado de Marcelo Vindicatto, preferindo a singeleza dos pequenos gestos aos diálogos verborrágicos. Ainda acertaram em representar os espetáculos circenses, criando um fio lógico para a formação da crise em que se passava o palhaço, além de trazer diversão para o público. Há uma preocupação em dar o devido espaço aos outros personagens, para que nenhum perdesse o valor familiar para fazer valer a descoberta final de Benjamim.

Pode se dizer que Selton Mello é o filme em toda sua composição. Percebe-se também sua busca de inspiração em grandes mestres para tal feito. Usa muito Fellini para carregar no lirismo, desfila cenas sonoras e bem montadas, fazendo o espectador se aproximar dos sentimentos do personagem. E alguns trechos de Bergman, para criar uma espécie de auto retrato, através de simbologias. A procura do Palhaço pela sua felicidade é, de certo modo, a busca do diretor por algo que tenha se perdido em sua trajetória de vida. É como se montasse mais uma peça de um quebra-cabeça iniciado em seu debute na direção, o modesto Feliz Natal (2008).

Mas ao contrário de seu longa de estreia, onde o personagem central tinha de enfrentar velhos fantasmas familiares, a viagem de Benjamim é para dentro de si mesmo. O ventilador, a identidade e o sutiã, Selton buscou representar a felicidade e o gozo do personagem, enclausurados em simples elementos, que na verdade não passam de fetiches desesperados e alegóricos. Através dos olhos da pequena Guilhermina, a jovem Larrissa Manoela em ótima atuação, o diretor se insere na história para conduzir o ato final.

Ainda sobrou tempo para Paulo José, mesmo limitado pela fisiologia, desfilar sua classe. E, óbvio, não tem como deixar passar as pequenas, mas belas contribuições de Moacyr Franco e Jorge Loredo (o Zé Bonitinho), que em pouco mais de cinco minutos conseguem deixar mais alegre a obra. Uma pequena homenagem aos grandes palhaços brasileiros.

A única dúvida que o filme deixa é se Selton Mello foi melhor atrás ou em frente às câmeras. Prova a cada trabalho que tem tudo para se tornar um Sean Penn brasileiro, excepcional atuando, competente dirigindo. Fez de um filme de produção humilde, um dos melhores dos últimos anos por aqui. Deixando claro que para se fazer cinema em terras tupiniquins, tem que entender bem do assunto, seja fazendo o público sorrir ou chorar. Contudo, pode não agradar a públicos menos sensíveis, o que seria uma pena.



Paulo César da Silva é estudante de Jornalismo e autodidata em Cinema.
Escreveu e dirigiu um curta-metragem em 2010, Nicotina 2mg. 

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