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    Daniela Aragão Daniela Aragão 11/06/2016


    Garfil: meu girassol peludo

    Capitu com a barriga volumosa e muito redondinha, aguardava a chegada de três filhotes, conforme descreveu o ultrassom. As moças responsáveis pela limpeza do condomínio apostavam com quase total convicção que o pai era o caramelado e viril Chorão. No fundo, eu estava gostando bastante da suposição, pois contava com a chegada ao menos de um rebento igual ao pai. 
    Quando Capitu deu a luz, nenhum dos três esmirradinhos gatinhos passava perto do tom caramelado, com nuances de anéis dourados, que contornavam toda a pelagem de Chorão. Como descrevi crônicas atrás, dois saíram ao modelo da mãe e um todo camuflado.  Joguei para os ares o desejo de cuidar de um felino todo amarelinho.

    Nessa época, a nobre família felina de acinzentados, que por vezes me visita nas frestas das janelas à procura de ração, não havia ainda ampliado. Imagino que só a mãe, que segundo minha irmã, é a própria namorada do Gato de Botas, se escondia do sol nas manhãs e tardes debaixo dos carros.

    Minha audição é muito apurada para ouvir música que me sensibiliza e muito pouco desenvolvida para distinguir pluralidades de sons, que se  misturam no frenesi da ruas, principalmente de cidades a meu ver grandes, como Teresina. Cerca de duas noites sucessivas, ao caminhar pela entrada do condomínio, ouvi uns miados fininhos os quais não conseguia identificar de onde partiam. Na terceira noite, ao escutar o mesmo miado muito agudo, parei na porta de entrada, até que conseguisse encontrar qual a origem do percurso sonoro que implorava um pedido de socorro.

    Não demorou mais que cinco minutos, para que concentrada no som, achasse seu ponto de partida num buraco bem próximo à passagem do grande portão de entrada. Pois lá estava, encolhidinho e todo amarelinho o felino portador do grito de socorro insistente. Mesmo pequeno, mostrava-se bastante inquieto e selvagem, somente com a ajuda amigável de um dos porteiros, conseguimos retirá-lo daquele lugar tão estreito e nada aconchegante, o qual ele tentou se acomodar ou, inteligentemente, chamar a atenção de algum transeunte.

    Fui carregando no colo até meu apartamento aquela coisinha, que mais parecia um novelo de lã todo amarelinho. Ao abrir a porta Capitu e Ravel não responderam muito afáveis à chegada de um suposto novo habitante. A matriarca projetou as garras para fora e os dentes pontiagudos, impondo sua posição de rainha absoluta do lar, enquanto Ravel, obediente à mãe, ficou quieto e pouco demonstrou objeção.   

    A primeira medida foi dar um banho no novo hóspede, que ofereceu uma resistência suportável a tão temida água. Arranhou-me um pouquinho nas mãos, mas deixou que eu acariciasse com shampoo de gatinho seu pequenino crânio, a barriga e as patinhas, com almofadas macias para o pouso leve e elegantemente silencioso. Enxuguei-o na toalha e depois no secador de cabelos. Sequinho e perfumado, o espertinho correu para a minha cama, se enrolou sobre si mesmo como uma rosquinha e ficou me olhando com o olhar mais terno, sedutor e misterioso, que só um felino sabe mostrar. Claro que não resisti e tratei de apresentá-lo devidamente a Capitu e Ravel, como mais um integrante de nossa família.

    Para ele não escolhi nome de personagem de livro, nem de músico, pois tornou-se inevitável a comparação com o famoso gato Garfield, do cartunista Jim Davis. Como quis abrasileirar um pouco, reduzi duas letras e transformei-o em Garfil.  Meu felino cor de sol, caramelo e girassol, é tão preguiçoso e senhor de si, quanto o personagem de Jim Davis. Hoje, já com o porte de um macho adulto, adora ser cortejado por Capitu, que acabou adotando-o como filho. Procura a mãe para receber muitos banhos de língua e carinho, e o irmão de coração Ravel é companhia inseparável para as traquinagens da madrugada.

    Seu lugar preferido é o esconderijo entre meus vestidos dependurados na arara. Puxa um pouquinho da barra de algum e deita como se fosse um tapete. Nesse refúgio passa quase o dia todo, sai poucas vezes para degustar um pouquinho de ração que deixou no prato, beber água e dar uma sacada no sol, que quase sempre está na intensidade dourada de seus pelos.

    Como todo filho é único, Garfil é carinhoso à sua maneira, e quando está disposto permite-me acariciar seu crânio e suas orelhas demonstrando um prazer enorme com os olhinhos fechados. Seu focinho é mais rosa que o do irmão Ravel, mas ao invés de formar um coração, compõe uma nuance especial diante de tanto sol luzindo em seu pelo. Garfil é meu leãozinho, meu girassol peludo.


    Daniela Aragão é Doutora em Literatura Brasileira pela Puc-Rio e cantora. Desenvolve pesquisas sobre cantores e compositores da música popular brasileira, com artigos publicados em jornais como Suplemento Minas de Belo Horizonte e AcheiUSA. Gravou, em 2005, o CD Daniela Aragão face A Sueli Costa face A Cacaso.

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