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    Daniela Aragão Daniela Aragão 16/07/2016

    Cartola: Bate outra vez

    Nosso cancioneiro traz, ao longo de sua trajetória, um acervo de composições que tematizam o amor em suas mais variadas instâncias. A tradição romântica enovela nossa rica diversidade de gêneros, que passa pela modinha, valsa, samba canção, choro, partido alto, baião, sertanejo, bossa-nova, rock e amplos desdobramentos. Na crônica anterior, não pude deixar de citar “Juventude transviada” e “Chuvas de verão”, duas composições, que aos olhos, imperdoavelmente, críticos do meu pai, eram consideradas as mais belas de nossa música popular brasileira. Hoje me bate uma vontade imensa de ouvir Cartola, autor de canções sublimes, que desvelam o amor com uma densidade lírica inigualável.

    “Ainda é cedo amor/Mal começaste a conhecer a vida/Já anuncias a hora de partida/Sem saber mesmo o rumo que irás tomar/Preste atenção querida/Embora eu saiba que estas resolvida/Em cada esquina cai um pouco a tua vida/Em pouco tempo não serás mais o que és”. Cazuza canta a primeira faixa do meu vinil (envelhecido pelo tempo), acompanhado pelo virtuoso violão de Raphael Rabello e pela gaita exuberante de Rildo Hora. Uma interpretação cujo cantor se entrega num mergulho que deixa transbordar a delicadeza e o lirismo dos versos profundos de Cartola. Por meio da audição revisitada desta faixa adentrei no vasto mundo deste criador. Cartola, nas palavras do compositor, cantor e pesquisador Nelson Sargento “Não existiu, foi um sonho que a gente teve”. Detenho-me num dos mais admiráveis discos realizados em homenagem a Cartola. Lançado em 1988, em vinil, permanece atual na qualidade do repertório, arranjos, músicos e interpretações. O amor é tema constante nas canções que desvelam dores, desencantos, sonhos, deslumbramentos. Não se trata do derramamento de feição desmedida à moda dos versos de Lupicínio Rodrigues e Maysa, que cantaram o amor exasperado. O amor, nas letras de Cartola, desponta com a suavidade madura do alumbramento, despido de fetiche, como quer a primorosa “Tive sim”, declaração do compositor a sua musa Dona Zica: “Tive sim/Outro grande amor antes do teu/Tive, sim/O que ela sonhava eram/ os meus sonhos e assim/ íamos vivendo em paz/nosso lar, em nosso lar sempre/ houve alegria/Eu vivia tão contente/Como contente ao teu lado/ estou/Tive, sim/Mas comparar com teu amor/ seria o fim/Mas vou calar/Pois não pretendo amor te magoar”. A interpretação de Dona Ivone Lara, com seu timbre singular e afinação, valoriza o coloquialismo da letra de Cartola, que evoca a leveza de um amor maturado de carinho.

    “As rosas não falam”, gravada por Gal Costa, acompanhada pelo piano de César Camargo Mariano, tornou-se uma das músicas mais conhecidas e gravadas do compositor. Rosa, elemento presente em abundância nas canções de Dorival Caymmi, cintila na letra de Cartola com uma intensidade imbuída de uma inexorável sensação de impermanência: “Queixam-me as rosas/Mas que bobagem/As rosas não falam/Simplesmente as rosas exalam/O perfume que roubam de ti, ai”. A natureza para Cartola é cenário que recobre ao fascínio pela chegada do amor, ou a resignação diante da certeza de sua irremediável finitude.  A cantora Vânia Bastos, com seu agudo cristalino, enaltecido pelas notas do piano de Eduardo Souto Neto, colore o traçado melódico ascensional que reveste o estado de paixão: “Linda/te sinto mais bela/te fico na espera/Me sinto tão só aí/ O tempo que passa em dor maior/ bem maior/ Linda no que se apresenta/o triste se ausenta fez-se a alegria corra e olhe o céu que o sol vem trazer bom dia”.

    Resignação, parece ser a palavra que melhor traduz o estado das emoções descritas com plenitude poética nas composições de Cartola. “Minha”, interpretada pela voz rica em dinâmica rítmica de Zeca Pagodinho, apresenta um casamento afinado com a base, formada pelo violão de Dino 7 cordas, pandeiro de Milton Manhães e Bandolim, de Zé Meneses. A mulher desejada escapuliu do desejo de posse de seu conquistador, que celebra em tom de autoironia sua própria incapacidade afetiva: “Minha quem disse que ela foi minha/Se fosse seria a rainha//minha ela não foi um só instante/como diziam as cartomantes/ como eram falsas as bolas de cristal”.  

    “Amor proibido”, gravada em dueto pelos grandes compositores Paulinho da Viola e Elton Medeiros, dá encadeamento a sensação de fugacidade da vivência amorosa. A sutileza da caixinha de fósforo, tocada por Elton, oferece um encorpamento rítmico ao violão de Paulinho. Neste caso, Cartola é alimentado pela manifestação de inconformismo, que tomou, fortemente, muitas criações do compositor gaucho Lupicínio Rodrigues, que ano passado completaria um século de existência: “Mas, enquanto houver força em meu peito/Eu não quero mais nada/Só vingança, vingança, vingança/Aos santos clamar/Ela há de rolar como as pedras/Que rolam na estrada”. Transborda certo senso de vingança da ânima tão nobre do compositor da Verde e Rosa:  “Sabes que vou partir/Com os olhos rasos d’água/ E o coração ferido/ Quando lembrar de ti/ Me lembrarei também/Deste amor proibido/Fácil demais/Fui presa/Servi de pasto/Em tua mesa/Mas fique certa que jamais/ Terás o meu amor/Porque não tens pudor”.  

    Cartola foi de fato um sonho que a gente teve.


    Daniela Aragão é Doutora em Literatura Brasileira pela Puc-Rio e cantora. Desenvolve pesquisas sobre cantores e compositores da música popular brasileira, com artigos publicados em jornais como Suplemento Minas de Belo Horizonte e AcheiUSA. Gravou, em 2005, o CD Daniela Aragão face A Sueli Costa face A Cacaso.

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