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    Caetano Veloso por Zeze Motta, Cida Moreira e Maria Alcina

    Daniela Aragão Daniela Aragão 5/05/2018

    Não fui ao show de Caetano Veloso com seus filhos. Claro que eu queria ir, mas, como as benesses quando chegam costumam vir todas juntas, foi preciso escolher. Optei por assistir a esperada peça em homenagem à Nara Leão, na sexta-feira. No sábado fui ao Festival “Toda-canção” para apreciar da fila do gargarejo, Alfredo Del Penho, Nei Lopes e Joyce Moreno. Dois dias revigorantes, que de tão belos e especiais, deixo para uma próxima crônica.

    Três pessoas vieram me confidenciar o quanto de beleza sonora perdi ao recusar a ida ao show de Caetano e sua prole. Sobrevivem intactos no meu imaginário, relatos de alguns dos seus espetáculos os quais nunca tive a oportunidade de assistir. Minha saudosa tia, “Caetanóloga” de carteirinha, passou um bom tempo a me contar a maravilha que foi o “Estrangeiro”, anos depois me deu detalhes do “Circuladô”.

    O Caetano Veloso, que tive a oportunidade de assistir, trajava um terno Armani e encontrava-se bastante comportado, para as minhas aspirações de ver um Caê mais dionisíaco. Acompanhava-se ao violão, com o auxílio do som, muito belo, do cello de Jacques Morelembaum.

    Caetano Veloso é certamente um dos compositores brasileiros mais interpretados por uma diversidade de vozes. Volta-me então à memória a estreia do espetáculo “Corações vagabundos”, dirigido por Thiago Marques Luiz.  Uma homenagem ao compositor baiano, nas vozes das cantoras Cida Moreira, Zezé Motta e Maria Alcina.

    Teatro 4 de setembro em Teresina, lotado. Os músicos iniciam a apresentação e em seguida chega Zezé Motta, trajada com um sensual vestido, na cor ouro velho. Um foco de intensa luminosidade, amarela, fecha um pequeno círculo ao redor da cantora, que solta a voz:  “Luz do sol/Que a folha traga e traduz/Em verde novo/Em folha, em graça, em vida, em força em luz”. O corpo da atriz-cantora se expande em movimentos de sensualidade e beleza, que a cada entoar de uma nota, intensifica a revelação da magnitude dos versos de Caetano Veloso.

    O Caetano apresentado por Zezé Motta desvela uma de suas faces mais acentuadas e a mim mais fascinante. Trata-se do Caetano “leão de fogo”, ferino, erótico. A pulsação do desejo, que jamais se esgota na canção tema do filme de Neville de Almeida “A dama da lotação” (adaptação da obra de Nelson Rodrigues), ganha contornos de acentuada sensualidade na interpretação de Zezé Motta. Saudades de Sônia Braga, carmim, carnuda, vermelha, em seu vestido rubro e sua tez morena, que escancaram a languidez. A negra Zezé, dourada e solar, dá um sorriso de soslaio para a plateia e solta o “Pecado original”: “todo dia, toda noite/ toda hora, toda madrugada/ Momento e manhã/ Todo mundo, todos os segundos do minuto, vivem a eternidade da maçã//A gente não sabe o lugar certo de colocar o desejo”.

    O Caetano ensolarado e erótico, desvelado por meio da performance vocal e corporal de Zezé Motta é permeado de contrastes. A delicadeza e a virilidade são narradas por meio de um detalhe de luz, de uma contorção de braços, de um prolongamento ou suspensão súbita de uma nota e uma sílaba. Ao ouvir Zezé, fui acionando meu acervo da vertente “Eros” de Caetano Veloso, que me trouxe “Amor mais que discreto”, “Vera gata”, “Muito”, “a tua presença”, “Sete mil vezes”, “Menino do rio”, “Deusa urbana”. 

    O sol vai se pondo de mansinho e Zezé desaparece, entre tantos desejos vislumbrados e interditos. Na quase noite, surge no centro do palco Cida Moreira, que move o dionisíaco Caetano Veloso para o cerne de sua complexidade apolínea. A voz grave da cantora parece descer ainda mais alguns degraus com sua força existencialista, na impactante leitura que realiza com sua interpretação solo ao piano, para “Recanto”: “Em breve só saio de noite/A lua não me rasga o peito/ cool jazz me faz feliz e só/Não tenho jeito//Mas é sempre o recanto escuro/ Só Deus sabe o duro que eu dei/Mulher, aos prazeres futuro/Eu me guardei”.

    O Caetano Veloso existencialista ganha um mosaico de cores na performance de  Cida Moreira. Momento de elevação epifânica e que me extasia, quando a cantora interpreta “Amor”, versão do compositor para os versos do poeta Maiakovski. As luzes agora se aquecem em degradês de vermelhos. O amor carne e desejo, que escorrega meloso pelo suor da pele negra e luminosa de Zezé Motta, torna-se seco. O amor aflito, na composição dos glóbulos brancos de sangue, na alva pele de Cida. O amor, por vezes, vontade de comunhão com as faces de Eros e Tanatos. Encontro entre as vertentes do yin e yang. Amor que contempla o anseio do definitivo encontro-equilíbrio entre céu e terra: “Ressucita-me/ para que a partir de hoje/ a família se transforme/E o pai/ Seja pelo menos/ O universo/ E a mãe/Seja no mínimo / A terra”. 

    A noite transcorre no ápice de sua madrugada densa. É lírica e incisiva a homenagem de Cida Moreira a Torquato Neto, poeta-totem de Teresina. “Cajuína”, uma das canções mais singelas e ternas de Caetano Veloso, despe-se do suporte da música e paira com sua poesia crua na voz da cantora, à capella: “Existirmos: a que será que se destina?/ Pois quando tu me deste a rosa pequenina/ Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina/ Do menino infeliz não se nos ilumina/ Tão pouco turva-se a lágrima nordestina/ Apenas a matéria vida era tão fina/ E éramos olharmo-nos intacta retina/A cajuína cristalina em Teresina”. Brilha o Caetano da linhagem de muitas criações introspectivas e reflexivas: “Peter Gast”, “José”, “ O homem velho”, “Estou triste”.

    O palco e os músicos fecham a segunda parte, demasiadamente, graves. O dia amanhece, novamente, e conserva acesa a chama da luz do sol, evocada por Zezé Motta e a gravidade da tessitura vocal, com o mergulho reflexivo que me proporcionou a performance de Cida Moreira. 

    É hora de ir distendendo a musculatura e abrindo sorrisos, é a chance que nos permite subverter os comandos da lei. Com chuva, suor, cerveja, confetes e serpentinas, adentra no palco a expressionista Maria Alcina. Instante que me remete a Carmem Miranda e as vedetes do rebolado, visão festiva que me conduz ao Caetano Veloso efusivo, com sua vertente tropicalista.

    Um collant inteiramente de paetês, maquiagem pesada, penachos e bananas na cabeça. Salve simpatia, alegria e vigor, nos malabarismos vocais da cantora Maria Alcina, que levou a plateia ao frenesi. O Caetano Veloso tropicalista, com sua expressividade iconoclasta e experimental, ganha interpretações repletas de swing e ricos improvisos. Excelente arranjo elaborado para “Tropicália”.

    Maria Alcina quebra tudo, brinca ao fazer scatchs que mostram sua desenvoltura de cunho jazzístico. Se Elza Soares já tinha arrebatado em sua versão de “Língua”, em dueto com o próprio autor, Maria Alcina desafia os músicos na escansão das sílabas e no jogo lúdico com as palavras e os sons. Arcaísmos ou neologismos, tanto faz. “A língua é minha pátria/E eu não tenho pátria, tenho mátria/ E quero frátria”. A plateia explode. A alegria toma conta dos músicos, da cantora e do público que em uníssono responde bem alto ao exotismo de cada palavra e som.

    Teresina, a terra mais ensolarada que já conheci, encerra sua noite, completamente, cheia de sol, com a tríade das grandes cantoras Zezé Motta, Cida Moreira e Maria Alcina. Caetano é sol, noite e carnaval.

    Daniela Aragão é Doutora em Literatura Brasileira pela Puc-Rio e cantora. Desenvolve pesquisas sobre cantores e compositores da música popular brasileira, com artigos publicados em jornais como Suplemento Minas de Belo Horizonte e AcheiUSA. Gravou, em 2005, o CD Daniela Aragão face A Sueli Costa face A Cacaso.

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