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    Ivan Bilheiro Ivan Bilheiro 21/03/2014

    Páginas Cheias, Cabeças Vazias

    [Este artigo retoma o escrito "Sobre informação e conhecimento", publicado em fevereiro/2014]

    artigosImagine que Sócrates, o filósofo da Grécia Antiga, por algum fenômeno inexplicável, tivesse novamente voltado à vida, nos dias de hoje. Passeando pelas ruas, ele poderia se deparar com uma mensagem, à porta de um templo (não mais o Oráculo de Delfos, mas uma grande e luxuosa morada divina), e esta mensagem diria: "Conhece a ti mesmo!". Inteirado acerca das novas ferramentas e métodos de investigação, não seria surpreendente se ele lançasse a pergunta "Quem é Sócrates?" na pesquisa do Google.

    A anedota aponta para a reflexão sobre a onipresença e a pretensa onipotência da internet como meio de pesquisa e investigação. No âmbito acadêmico e escolar, tal situação – que é, em síntese, o mal uso de uma rica ferramenta – tem gerado sérios problemas. Para todo e qualquer tema de pesquisa, o primeiro caminho adotado por quase todos os estudantes é o de buscar informações na internet. Nada de mal até aí. O problema aparece no processamento dos dados ali coletados, ou na ausência deste mesmo processamento. Via de regra, a pesquisa se encerra com a cópia das informações encontradas em uma rápida busca on line, e daí surgem as principais complicações.

    Para não falar da seríssima questão do plágio, um crime, e a mais preguiçosa forma de apresentar um trabalho, pode-se elencar uma série de outros problemas decorrentes deste hábito de fazer um pobre uso desta fonte de informações que é a internet: quando se toma parte de um texto ou um texto completo da internet e ele é apresentado como pesquisa, a responsabilidade pelos possíveis erros ali contidos passa a ser daquele que apresenta a "pesquisa". Ora, e quantas falas e fragmentos de texto em circulação hoje no universo on line não são falsamente atribuídas? Que o digam Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu, Luis Fernando Verissimo... Erros conceituais, equívocos gramaticais, falsas citações: tudo cai na conta de quem apresenta o trabalho sem checar as fontes, e é muito fácil encontrar estes tipos de deslizes nas páginas da internet.

    Ocorrem, igualmente, casos em que a busca na internet oferece alguns resultados que, parecendo confiáveis e completos, são dados como "trabalhos prontos". Mas sem que tais informações sejam comparadas, lidas com atenção, questionadas e estudadas, diversos erros acabam entrando na conta do "pesquisador", porque ele não se deu ao trabalho do processamento.

    Além do mais, em turmas grandes de estudantes, acontecem situações em que diversos trabalhos são similares porque seus "autores", ao buscarem o tema na internet, sem qualquer critério para seleção de informações, acabam adotando os primeiros resultados como suficientes. Se estes resultados contiverem dados errados, então, catástrofe geral.

    Se as atuais gerações de estudantes, muitas vezes "nativos digitais", ou já completamente familiarizados com as ferramentas mais avançadas de busca de informações (como a internet) não forem orientadas para um bom uso do que está à disposição delas, o caminho educacional será manchado por recorrentes plágios, equívocos, além de um perverso "reducionismo aos primeiros resultados da busca".

    Retomando o fictício caso de Sócrates na esteira da inadequada apropriação e uso de ferramentas de pesquisa: solicitado a apresentar um trabalho sobre o tema "Quem foi Sócrates?", não é de se duvidar que seu texto pudesse começar com "Famoso jogador de futebol brasileiro, além de médico..."

    Cuidado com as pesquisas na internet nunca é demais pois, no fim das contas, quem é o responsável pela qualidade do trabalho apresentado? Nas escolas e no mundo acadêmico em geral, tais pesquisas devem ser somente o passo inicial para um processamento de informações e, assim, de aprendizado. Nenhum "copiar e colar" pode servir por si só para este aprendizado. Estudantes que seguem essa linha terminarão seus estudos dizendo "Só sei que nada sei", aquela famosa frase atribuída a Sócrates, o verdadeiro filósofo grego, embora com outro significado...


    Ivan Bilheiro é professor de Filosofia e Sociologia. Licenciado em História pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CES/JF), bacharel e licenciado em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), instituição na qual cursa o Mestrado em Ciência da Religião. É, também, especialista em Filosofia pela Universidade Gama Filho (UGF) e em Ciência da Religião pela UFJF.

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